quinta-feira, 17 de março de 2011

Uma mão cheia de...vida!!!!

O dia 15 de Março amanheceu num azul ainda tímido, encoberto, mas, ainda assim, notoriamente brilhante…
Quase tão brilhante e reluzente como o teu sorriso e, diria mesmo, quase tão primaveril como toda a tua forma de ser…
Tu, o meu rebento, uma  pequena grande árvore em crescimento: forte, denso, frondoso, cativante, alegre, lindo.

Queria dizer-te que o Mundo hoje, no dia dos teus anos, dos teus cinco anos, está mais belo que nunca. Esse presente não posso, infelizmente, dar-to. Como mãe  dar-te-ei, contudo, a verdade que couber no tamanho dos teus cinco anos feitos hoje, dia 15…

Posso dar-te já o presente de te dizer que tens uma grande família que te ama. E este é um presente enorme, filho!!!! É um presente tão grande, tão grande que a mãe não vai ter papel nem laço em forma de palavras suficientes de tão difícil que seria embrulhá-lo!!!!

É um presente daqueles que não se embrulham, daqueles que já vêm enfeitados de um amor que vai chegar para toda a tua vida, já viste, tão grande que é e vai ser sempre?????

Depois, também te posso dar outro presente que sei que vais adorar… Este é mais concreto!!! Vai ser uma grande surpresa!!!! Só encontrei em Viena!!! Em Portugal INTEIRO estão esgotados e também procurei em Bruxelas mas saltei de alegria quando encontrei numa loja espantosa (onde eu própria fiquei perdidamente encantada!!!) em Viena, em plena Stephansplatz…
O que é, o que é??? Ai pois é!!!! O raríssimo Beyblade Metalfusion Red Flame!!!!

Depois ainda vais receber outro presente do pai que também vais adorar para as tardes de sábado na Lagoinha: um conjunto para investigares insectos!!! A Bia vai oferecer-te aquilo que tu tinhas pedido em segredo: um perfume dos Bakugans!!!! (Vês como a tua irmã está sempre muito atenta aos teus desejos mais secretos!!!! E, vaidosa como ela é, está sempre atenta às novas tendências!!!! Até já sabe pedir amostras de perfume para menina!!!! E queria amostras de baton e amostras de verniz, imagine-se!!! Onde é que isto já chegou!!! E ela que nunca viu a mãe de unhas pintadas, fará se visse!!!!Qualquer dia será tão altiva quanto uma Judith de Klimt!!!)

 Também vais ter festas e bolinhos e beijinhos e telefonemas e postais e coisas boas, boas, boas…

Quanto ao Mundo, filho… Agora que tens cinco anos, talvez já te possa dizer algo mais… Mesmo que ainda não percebas, quero que fiques a saber como estava o Mundo lá fora quando fizeste cinco anos para saberes, quando fizeres cinquenta, se ele está melhor…Eu espero que esteja…

Por isso digo-te a verdade, nua e crua. Aqui vai:

Hoje, dia 15 de Março de 2011, uma ameaça de crise nuclear “transborda” no Japão… Para te “situares”, o Japão é o país de onde vêm os Beyblades e onde o nosso amigo Buli correu há relativamente poucos dias, mais propriamente a 27 de Fevereiro, se não me engano,  a maratona de Tóquio…

Como é que eu te vou explicar a gravidade de uma crise nuclear?

Acho que de todo o blá. blá, blá que eu te dissesse tu só irias ouvir: “muitas pessoas deixariam de existir, entre elas, claro,  as pessoas que fazem os Beyblades…”

E por que é que aconteceu uma catástrofe radioactiva no Japão, perguntarás tu de imediato…Sei que achas  graça às palavras “tsunami” e “terramoto” mas elas, infelizmente, representam uma realidade sem graça nenhuma…

Também sei que ouviste as notícias do tsunami e sabes que é uma espécie de vulcão debaixo de água e que isso te fez muita confusão pois perguntaste logo porque é que o vulcão não se apagava se estava debaixo de água.

O problema é que a sua “explosão” provoca uma espécie de onda gigante que derruba tudo o que encontra à frente…O essencial é que tu percebeste que se tratava de algo grave e que outras pessoas num outro local do nosso Mundo estavam a sofrer…
Mais propriamente, 10 000 estão desaparecidas, 3.000.000 de pessoas estão sem acesso a água potável e não vou falar de outros números ainda mais tristes…Digamos que são muitas mãos cheias de…nada.
Agora, filho, vou ser um pouco crítica e talvez tu só percebas o que eu quero dizer quando tiveres mais mãos cheias de anos. Mas não te preocupes…Há tempo para tudo e será bom sinal se tu tiveres esse tempo.

Não foi por acaso que eu falei deste assunto do Japão logo no dia dos teus anos… Talvez pareça mau gosto. Talvez até o seja.

Para mim, o principal é que é talvez dos assuntos mais sérios de que te poderei falar pois é talvez aquele com que tu te tenhas que deparar no futuro: o problema da estupidez humana! A evidência da absoluta fragilidade das coisas! A nossa condição de micróbios ignorantes que se julgam amos e senhores do Universo! A nossa falta de humildade enquanto seres e enquanto espécie! A falta de amor para com os outros e para connosco!

(Percebo, filho, que este discurso te pareça totalmente confuso até porque estás numa idade em que interpretas tudo “à letra” e deve ser muito esquisito para ti a mãe dizer que nós somos micróbios… Não, filho, tu não és nenhum micróbio, tu és bem grande e bem visível!!!! E sim, gostas dos outros, és amigo, muito amigo, ajudas, pensas nos outros…Tens uma boa índole, como a tua pediatra gosta de dizer!!!! Eu estou a falar no geral…Filosofias…Pensamentos e tontices de mãe…)

Retomando…

O caso actual do Japão faz-me pensar que, efectivamente, vivemos uma existência tão protegida que nos esquecemos da absoluta fragilidade das coisas… Mas basta que a Terra, que não é mais que mais um planeta em mais uma galáxia de tantas outras dum mesmo Universo (será mesmo só um?), para que voltemos à nossa condição de…micróbios.

O Japão só vem demonstrar que nem a hipertecnologia nem um elevado nível de desenvolvimento convertem o ser humano em dono do seu destino. A aterradora crise nuclear é um desmentido das nossas pretensões de sermos Amos e Senhores do Universo.

No fundo, só demonstramos ser micróbios ignorantes que tentam jogar com forças infinitamente mais poderosas que eles próprios!!!

É por isso que crescer não basta! Ter mais anos não basta! Isso até os micróbios fazem…

O objectivo de uma vida não deve ser apenas crescer mas sim desenvolver-se, desenvolver-se com um sentido, eventualmente com o sentido de, se não for possível deixarmos o mundo à nossa volta melhor, pelo menos que não o tornemos pior!!!

Mas que pelo menos, ao desenvolvermo-nos enquanto pessoas, à medida que vamos acrescentando anos à vida e vida ao anos, possamos melhorar os anos de vida dos outros e os nossos em simultâneo…Confuso???


Vais ver que quando passares à prática tudo se torna mais simples…E, na verdade, tu já fazes isso há bastante tempo sem te dares conta… A partir de agora a única diferença é que cada vez mais te vais tornando um pouquinho mais consciente do que fazes e do impacto que isso tem nos outros!!!

Mas como eu vou ser tua mãe o resto da vida, ainda vamos ter muito tempo para falar disto… Agora vamos falar de outras coisas que também te interessam…

O que é que muda quando temos cinco anos???? Ou uma mão cheia de anos de vida???!!!!
Bem, na verdade, não muda nada e muda tudo!!! Muda o que tem vindo a mudar!!!
Não sei se é boa ou má notícia, filho, mas…vão cair-te mais dentes!!!

Já te caiu o primeiro dente no passado dia 8 de Março… E veio logo a fada dos dentes tirá-lo debaixo da almofada para o trocar por aquela surpresa que tu tanto querias: o tal Beyblade Metal Fusion Pegasus que tu pensavas que tinhas perdido e que parece que ela, entretanto, o encontrou!!!
 E ainda te deixou um ovo Kinder com mais um carrinho de surpresa lá dentro!!!

A tal fadinha deve ter mesmo um dedo mindinho que adivinha!!!(ou então é mesmo a varinha mágica ou não fosse ela uma fada como deve ser!).
Pois é, estou cá desconfiada que, agora com cinco anos, vais receber mais vezes a visita desta fadinha!!!

Começarás a ter ainda mais força para correr, jogar, andar de bicicleta (daqui a pouco já sem rodinhas!!!), dar mergulhos, fazer as sandes para os lanches e almoços de piquenique sozinho, já dobrarás a tua roupa, aprenderás a apertar os ténis (!), a desenhar a mãe ligeiramente menos parecida com um Gormitti e o pai menos parecido com um Bakugan, etc, etc, etc….

Vais aprender tanta coisa…tanta coisa, filho!!! Estás um homem!!! É como tu disseste quando te caiu o dente: Oh mãe, tens a certeza que tenho um dente de homem por baixo deste dente de bebé que me caiu? É que se eu fico desdentado sou velhote e daqui a pouco morro sem ter sido adulto!!!!
Enfim…ter cinco anos é uma idade esplêndida! Principalmente porque ainda falta muito para seres adulto!!!! E, principalmente, porque agora é que és verdadeiramente uma criança…
E olha que muito boa gente acha que não há idade melhor que esta!!!!

Parabéns, Tigas! Adoro-te, filhote!







quarta-feira, 9 de março de 2011

Uma mulher muito especial...



Ontem foi Dia da Mulher…Procurei, no meio de um carnaval de frases, alguma que pudesse contigo condizer...Nenhuma encontrei...Nenhuma...E nada escrevi...

Hoje, tive um dia difícil… Não vou aqui explanar as razões para não te cansar... Não queria, porém, deixar de te dizer algumas palavras muito simples, bordadas com todo o afecto e admiração que sinto por ti... Só lamento a inspiração ser tão pouca… tão mínima…atómica…neutrina…quântica… Pudesse eu ter as musas dum Rilke ou dum Camões ou dum Antunes e talvez assim fizesse justiça a este sentimento...Mas as minhas, se hoje estão por aqui, estarão porventura como eu: mais para lá do que para cá!

Por que razão paradoxal escrevo, então?

O motivo prende-se com uma necessidade urgente de te dizer GOSTO DE TI...A ti, que, para mim, és uma das mulheres mais especiais da Via Láctea e arredores!!!… E, como não te posso ligar pois não te quero perturbar o sono a esta hora absurda, tenho que te escrever…

Efectivamente, tu não mereces só um Dia da Mulher!!! Mereces toda uma vida, todo um ano, toda uma estação, todo um mês, todo um dia plenamente dedicado a ti… Mas não tenho esse poder…Não posso criar o “Ano Beatriz” (não, não é a minha filhota, embora ela também mereça!!!)…

Na verdade, nasceste num tempo em que não havia Dia(s) da Mulher e em que Mulher era sinónimo de Mulher a Dias (mas não paga!), totalmente submissa e reduzida a um marido, que nem direito a voto ou opinião a não ser a da toalha da mesa tinha...A própria vontade de estudar era precocemente rasgada a talho de foice por se entender que nem ler era preciso para saber lavar a roupa e fazer comer...

Mas tu sempre adoraste ler... E tiveste sempre uma força de vontade e uma inteligência indomáveis tanto que aos sessenta anos decidiste ir tirar a carta e passaste à primeira e hoje, com setentas e muitos, queres ir tirar o curso de inglês. Tu mesma me criaste sempre  rodeada de livros e revistas que eu adorava folhear ao teu colo...

Meu Deus, o quanto eu me deleitava a ler no teu doce colo a enciclopédia Verbo do Mundo Animal e admirar as tuas caretas a fingir que ficavas muito assustada quando eu te mostrava as cobras e os lagartos (tu és benfiquista ferrenha, portanto, percebe-se)!!!!

E o teu jeitinho a ensinar-me a ler???? E o jeitinho a ensinar-me o nome das plantas e o jeitinho  a ensinar-me a ser bem educada com os outros e o jeitinho a fazer almôndegas e o jeitinho a fazer carapaus com molho à espanhola e o jeitinho a fazer cozido e o jeitinho a fazer farófias e o jeitinho a fazer-me vestidos e o jeitinho a dar-me colo e o jeitinho a esconder surpresas e o jeitinho  a aconchegar-me e o jeitinho a consolar-me e o jeitinho a gostar de mim…Tão bem!!!! Tão Bom…(perdoem-me o polissíndeto mas...impunha-se!!!)

 Quanta bondade numa única pessoa!!! Quanta ternura, quanta inteligência, quanto bom-senso, quanta coragem, quanta força num único ser!!!!

E hoje, com quanto amor, jeito, mestria e sabedoria cuidas dos meus filhotes… Fazes-lhes os bifes panadinhos como eles gostam, fazes corridas de gatas, jogas “beyblades” com o Tigas, fazes uma saia de folhos para a Bia num abrir e fechar de olhos, vais com eles à frutaria, à mercearia, à padaria,à papelaria, dás-lhes pastéis de nata, pães-de-leite, chá das cinco, vestes-lhes mil e uma camisolas para não terem frio a ponto de os petizes andarem sempre mascarados de bonecas russas ou não fosses tu a melhor bisavó do Universo.

Tu és tanto…És tudo…E é tão injusto estar a escrever tão pouco e logo hoje sabendo que o cansaço me iria limitar a prosa e a criatividade…Mas há tarefas que não se devem adiar…E dizer Gosto de Ti AVÓ é uma delas…Sob pena de não irmos a tempo…

Avó Bia, é urgente eu dizer-te isto: Eu gosto taaaanto de ti!!!! Tanto!!!!! Tanto que tu nem imaginas!!!

Tu mereces este dia!!! Tu, verdadeiramente tu... Tu, que aprendeste poesia nos fados da Amália enquanto lavavas a roupa de quatro filhos à mão...Tu, que trabalhaste deste tão pequenina... Tu, que nos momentos mais difíceis, nas noites mais escuras, soubeste sempre pôr no céu do nosso olhar uma centelha de lua... Tu, que colocaste no círculo imperfeito do meu pescoço, um eterno colar de pétalas...Tu, que sempre que eu me senti presa ao chão, me deste mais uma pena de asa…
Tu… Tu…Tu…Tu, que me aturaste não sei como (!) depois de teres aturado os tios (!)...

Tu, que me deste o teu tempo e o teu lugar...Tu, que me deste a vida dos teus dias…E tudo o que isso valia…E tudo o que isso valeu e me vale até hoje… Deste-me todo o amor que me vale até sempre… Porque toda tu és dádiva…Porque toda tu és uma verdadeira Mulher…

Obrigada Avó!!!! Se eu pudesse, oferecia-te este dia!!!


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Encolher o tempo...

“O meu passatempo favorito é deixar passar o tempo, ter tempo, aproveitar o meu tempo, perder o tempo, viver a contratempo.”
Françoise Sagan

O seu olhar demorava-se-lhe nas mãos…Contava pelos dedos e voltava a contar como se criasse novas mãos perante a enormidade do número… De repente, aflora-lhe aos lábios a pergunta, num misto de angústia e desesperança:
-“Oh mãe, afinal quantas mãos faltam para eu fazer anos????”
A angústia compreendia-se… Afinal, desde Dezembro que o Tigas anda em contagem decrescente para o seu aniversário que, para desespero do pequenote, é só em Março…
-“Filhote, já só faltam três mãos cheias!!!! Está mesmo quase!!!!”
-Tanto mãe??? Ainda faltam esses dias todos??? Por que é que eu não posso fazer anos já amanhã? Ou hoje…Por que é que eu não posso fazer anos já hoje? Por que é que eu tenho sempre que esperar tanto…
- Tigas… Eu percebo que já esperaste muito mas nós não fazemos anos quando queremos…Fazemos uma vez por ano…Comemoramos no dia do nosso aniversário mais um ano que passou desde que nascemos…
- Mas por que é que eu não nasci mais cedo? Quem é que quis que eu só nascesse tão tarde, mãe?
(Adivinha-se a minha atrapalhação...)
-Bem…Não foi bem uma escolha, filhote…Tu foste crescendo, crescendo, crescendo na barriga da mãe e, em Março, já estavas tão grande que já te sentias apertado e…quiseste nascer!!!
-Bolas…por que é que eu não fiquei apertado logo no Natal!!!!!
- Oh Tigas, falta mesmo pouco para fazeres anos…Por que é que estás com tanta pressa?
- Porque tu disseste que só quando eu fizesse cinco anos é que já podia ir para a escola dos grandes e só nos meus anos é que os Beyblades (“bebeleites” como diz a Bia!!!) iam deixar de estar esgotados (ou “gostados” como também diz a princesa referida!!!!)!!!
- Pois…tens razão…mas não há nada a fazer…Tens mesmo que esperar mais quinze dias…Quinze dedos!!!
- Oh mãe, tu não podes encolher o tempo?
Encolher o tempo…Ora aí está uma boa sugestão para alguns casos e uma péssima sugestão para outros…Começo a divagar…
Às vezes, seria tão bom encolhermos o tempo que falta para a chegada daquele momento, daquele dia, daquele abraço, daquele sorriso, daquele olhar que quase nos faz pedir um mapa ou um gps por nos fazer sentir tão momentaneamente perdidos nele…
Seria tão bom encolhermos o tempo que falta para irmos buscar os pequeninos ao infantário, para os pegarmos ao colo (enquanto eles – e as nossas articulações - ainda nos deixam!) e fingirmos que os fazemos andar de avião…
Encolhermos o tempo para a chegada daquele avião… para a chegada da próxima viagem… para a chegada do Verão, das cerejas, da esplanadas, do corpo rendido ao toque da areia, dos olhos salpicados de sal e mar, dos passeios lânguidos sob o luar… Como seria bom encolher o tempo que falta para termos tempo, para perdermos tempo, para vivermos sem os olhos colados ao relógio e os ouvidos cronometrados com o despertador para acordar…
E, em antítese, quão bom seria esticar, dilatar, prolongar o tempo…Prolongar o tempo daquele mesmo abraço, daquele beijo no ombro, daquele sorriso…Dilatar o tempo de dar colo, dilatar o tempo das brincadeiras malucas, dos saltos na cama com collants na cabeça que os pequeninos adoram e quase choram de rir, das guitarradas, das músicas mesmo amalucadas!!!
Outros casos há em que encolher o tempo nos parece péssimo e dilatá-lo nos parece uma dádiva… Os meus alunos que o digam!!! Nos anos em que dou aulas ainda não houve nenhum aluno que me viesse pedir para fazer a frequência mais cedo… Muitos há, porém, que incansavelmente me pedem para as adiar… Também não me pedem menos tempo para fazer os exames…”Professora, pode ser só mais 5 minutos???”
E, por outro lado, também nunca me aconteceu um paciente pedir-me menos tempo de consulta…Pelo contrário…As questões mais importantes tendem a vir no fim…Enfim…Porventura sou mesmo eu que não sei gerir o tempo…Que não o encolho ou dilato quando devo…  Ou é o tempo que é mesmo assim…Relativo, como diria Einstein…
Quinze dias que faltam para um aniversário podem angustiar tanto uma criança como os quinze dias que faltam para uma primeira sessão de radioterapia numa adulta… De modos opostos!!!
E quinze dias podem ser tanto na vida de uns e tão pouco na vida de outros… Não me esqueço do meu querido sogro de 91 anos, após um internamento forçado também de quinze dias e de ter sobrevivido herculeamente a uma pneumonia, dizer-me: “Tens que me tirar daqui que aqui só estou a perder tempo!!!!”…
Esta é uma grande lição para aqueles que estão sempre a pensar que, só porque não têm isto ou aquilo que o vizinho tem, só porque não ganham assim ou assado, dão por perdida a sua vida… Há sempre tanto, ainda, a aprender… E todos os dias ganham um outro sentido se, em cada um deles, aprendermos algo de novo…Por muito simples que seja!!! (Ainda hoje fiquei maravilhada com o sorriso de encanto da Bia quando conseguiu, pela primeira vez, vestir-se totalmente sozinha!!! Totalmente!!! Camisola interior da Kitty, camisola da Kitty, saia anónima, cuecas da cinderella, collantes anónimos, “sapatos de mãe”(é como a Bia chama a todos os sapatos que não são ténis!!!) e ganchinho no cabelo…da Kitty!!!)!!!
Efectivamente, é uma grande verdade que não são os anos de vida que contam mas a vida que se dá aos anos, o sentido que vamos dando a cada dia, a cada hora, a cada minuto em que (ainda!) respiramos… e o saboreamos. Porque é exactamente desse minuto que podemos vir a sentir tanta, tanta falta…Durante um minuto podemos dizer a alguém o quanto dele ou dela gostamos, num minuto podemos fazer uma festa na testa dum sogro, dar um beijo no rosto de uma mãe, dum filho, dum sobrinho, dum amigo, de..alguém. Num minuto podemos escrever uma mensagem de força para quem se sente a ruir, num minuto podemos dar um sorriso, um abraço, a mão…Num minuto decide-se um jogo…Num minuto...Num segundo…Corta-se uma meta, conclui-se uma maratona, entrega-se um exame, ouve-se o primeiro choro dum filho a nascer...
Viver a vida um pouco mais devagar, sem a ânsia de estar sempre a partir ou a chegar mas sim aproveitando para saborear e admirar o caminho entre o ponto de partida, que conhecemos, e o ponto de chegada, que nunca iremos conhecer, é uma aprendizagem demorada…
Demora tempo a aprender a esperar…seja o que for… Um aniversário, por exemplo.  Mas, como referiu Kahlil Gibran “As tartarugas conhecem as estradas melhor que os coelhos”…
Porém, o meu pequeno Tigas, não está nada de acordo com o Gibran e, para ele, o aniversário devia vir não a passo de caracol, nem tartaruga nem mesmo a saltos de coelho mas somente a saltos de chita…Depressa, depressa, depressa…
Qual saborear o tempo, qual quê?!!! Ele quer é saborear o bolo de anos decorado com o Faísca Macqueen, apagar as cinco velas de uma assentada e deliciar-se com os amigos a jogar beyblade!!! O resto é…perda de tempo!!!

Claro que faltou responder ao essencial…Afinal que resposta é que eu dei ao Tigas sobre o meu poder de encolher o tempo…
Bem…com tanta divagação que fiz acabei por não dar nenhuma resposta. Na verdade,  encolhi os ombros e motivei uma forte contestação nitidamente desiludida do petiz:
-“Oh mãe, eu acho que vou desistir de fazer anos…. Não, já sei!!! E se eu trocar de anos com alguém!!!! Tu podes trocar os teu anos comigo?”
- O quê????!!! Trocar de anos?
-Sim…Assim eu fazia anos primeiro que tu e depois tu fazias quando eu faço!!!
- Mas isso não é possível Tigas… E, além disso, eu só faço em Novembro…falta-me muito mais para fazer anos do que a ti…
- Oh mãe…Então quem é que vai querer trocar de anos comigo?...

Encolhi os ombros e, rindo-me, respondi:
- Bem…Vou ver se sei de alguém que queira trocar de aniversário contigo!!!!

Aqui fica, então, o apelo “angustiado” de uma mãe:

- Alguém quer trocar de aniversário com o Tigas????

(Só se aceitam candidatos/as cujo aniversário seja anterior a 15 de Março!!!!Aceitam-se propostas e dá-se recompensa!!!!)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Leite em pó!!!!...

"A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos." Montesquieu


Há dias recebi um e-mail que me impressionou particularmente, não tanto pelo conteúdo mas essencialmente pelas intenções claramente xenófobas que o motivaram e o colocaram em ampla circulação.

 O mesmo tinha como intróito: “Olhem bem a táctica dos nossos (com aspas) amigos ciganos. O Sarkozy é que tem razão.” Seguia-se então uma breve filmagem captada por uma câmara oculta duma dita farmácia localizada em Massamá na qual se observada um furto de quatro latas de leite em pó praticado directamente por uma mulher, que as colocou dentro da saia comprida que trazia vestida, e,  indirectamente, por dois homens que aparentemente tinham como função distrair os farmacêuticos e auxiliares.

Não vou aqui defender o direito ao furto que, obviamente, não defendo. Mas, acima de tudo, defendo e vou defender até à morte o direito à vida e à dignidade humana.

Quando vi o referido “filme” confesso que não pensei nos cerca de 30 euros que aquela farmácia ia ter de prejuízo ao fim de um dia de receitas de 36 mil euros (estou a fazer uma generalização baseada numa heurística da disponibilidade pelo que a mesma não é credível. Sei apenas que as farmácias que conheço têm receitas médias diárias que rondam esse valor).

Na verdade, pensei muito mais nas crianças que estavam algures à espera daquele leite.

Podemos chocar-nos com o furto mas não é muito mais chocante saber que vivemos num país onde há famílias que têm que roubar para matar a fome aos filhos?

Não é muito mais chocante saber que há filhos em idades muito precoces em condições tais de pobreza que correm o risco de padecer de fome?

Não são muito mais chocantes os furtos de colarinho branco que se fazem neste país que nada têm a ver com a motivação de dar de comer a um filho mas de engordar a já obesa conta bancária, adquirir mais um modelo automóvel topo de gama para estacionar ao lado de outros doze?

Não é muito mais chocante crimes de pedofilia que saem impunes, crimes de companhias farmacêuticas apagados com chorudos subornos, furtos das próprias farmácias aos cofres do estado (a todos nós, afinal) devido à falsificação de receitas de anti-psicóticos que eram comparticipados pelo estado a 100% visto serem essenciais ao tratamento de patologias psiquiátricas crónicas gravíssimas como é o caso da esquizofrenia?

E saber que, devido à ganância de umas quantas destas farmácias, os doentes que realmente sofrem destas patologias totalmente incapacitantes deixaram de ter a sua medicação comparticipada a 100% e vêm-se obrigados a pagar, por vezes, mais de 100 Euros por caixa de neuroléptico quando a sua pensão de grande invalidez não vai além dos 180 Euros???!!!! Isto não choca???? Por que é que não circula com tanto sucesso????

Por momentos quase pensei na veracidade do provérbio: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão!!!

Mas depois pensei melhor… De nada nos vale formatarmos o pensamento à lei de Talião: olho por olho, dente por dente!!! Isso só nos leva à cegueira…E a ficarmos mentalmente desdentados!!!

Não é assim que este mundo, esta humanidade evolui…

Mas esta é a minha humilde opinião “darwinamente mokinista” (há pessoas que prezo muito que ainda me chamam Mókina!!! Entre as quais, os meus filhos que, apesar da tenra idade, não vão atrás do rebanho a chamar nomes aos colegas romenos, moldavos ou africanos com quem convivem… Brincam com eles como gostam que com eles brinquem… Tratam como gostam de ser tratados… Respeitam…E o respeito do outro não tem a ver com a idade cronológica mas com a idade mental!!!!).

 Mas há, evidentemente, outras opiniões. E até as posso compreender mas não me peçam que as aceite e, muito menos, que as divulgue como se fossem comummente aceites e, por isso, legítimas.

Continuo a acreditar que há valores que se sobrepõem, que os princípios morais universais se sobrepõem aos princípios individuais e que a moralidade heterónoma é significativamente mais desenvolvida que a moralidade autónoma, a moral egocêntrica, a moral do castigo.

Não faria mais sentido, em vez de se condenar esta mãe, e por ventura estes pais, ou tios, ou primos ou amigos, por furto, olhar para a situação a fundo e perceber o que realmente motiva estas pessoas a roubar? (na verdade, o verbo furtar é mais adequado pois roubar implica violência).

Elas não estão a furtar cremes para a celulite nem pastilhas de supressão tabágica. Estão a furtar leite em pó que, com certeza, não será para se porem a snifar!!!

Por que não usar este vídeo não para incentivar crenças xenófobas mas sim para alimentar sentimentos de humanidade, altruísmo, reflexões morais e sociológicas?

Por que não usar este vídeo para sugerir às farmácias e companhias farmacêuticas que, por exemplo, uma vez por semana distribuam gratuitamente leite em pó em amostras ou similares a TODAS as pessoas, independentemente da etnia, nacionalidade ou legitimidade de estada no país?

E o mesmo se aplicaria aos centros de saúde, maternidades e hospitais… Por que não o leite em pó ser gratuito para TODAS as crianças até aos 6 meses de idade, todas, mesmo aquelas que são filhas de pais sem visto de permanência e em situação ilegítima?

Certamente que muitos furtos iriam diminuir…Certamente talvez não víssemos tantos bebés à torreira do sol ou debaixo de chuva nos semáforos, ao colo de braços que se estendem com a “Revista Cais” na mão,  ou o “Borda D´Água” ou um pacote de pensos rápidos à espera de uma moeda…

Pensos rápidos…
Realmente é o que mais precisamos!!! Porque se os preconceitos, as generalizações estúpidas e/ou ignorantes e/ou maldosas os ferem, a eles, a eles que pedem, a nossa falta de humanidade, o nosso “olhar para o lado”, o nosso fechar o vidro, o nosso rir das tácticas de furto optimizadas para furtar leite em pó para calar o choro faminto dos filhos deveria ferir-nos muito mais!!!!

E talvez um “penso rápido” não chegue… É preciso um “pensar devagar” em todas estas questões!!!


(Sei que, no fim da leitura deste post talvez aqueles que me conhecem me considerem ainda mais ingénua,  ainda mais utópica, mais…Não sei.
Pensem o que quiserem pois felizmente todos temos liberdade para pensar porque ainda estamos suficientemente nutridos para o fazer…
Talvez até perca alguns amigos, gere desilusões… Compreendo...Não julgo ninguém, apenas exprimo a minha opinião…Continuo a achar que há romenos e romenos assim como há portugueses e portugueses assim como há ciganos e ciganos. E, acreditem, por experiência própria advinda das consultas e prática clínica, vos asseguro que há ciganos que não são nada “ciganos” no sentido pejorativo da palavra. Mesmo nada.  Acho que, em suma, há pessoas… Pessoas que são levadas a atitudes extremas porque também são alvo de medidas extremamente ignorantes, por vezes alvo de maldade extrema ou de situações de extrema precariedade económico-social.
 Esta é a minha opinião. Opinião que se torna cada vez mais forte à medida que sei o quanto tenho a sorte de não ter (ainda) que furtar nem fugir aos meus princípios para alimentar os meus filhos… Mas qualquer dia, como as coisas estão, não sei… Com a Galp a ter 360 milhões de lucro num ano de crise e eu a ter que forçosamente levar o carro para Lisboa porque tenho horários perversos de trabalho, tenho que levar os meus filhotes ao infantário que fica a 10 km de casa para depois fazer mais 70km para ir trabalhar, todos os dias…Não sei, não!!! Qualquer dia vão ver-me de saias bem compridas!!! ) 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cancro rosa ao peito


O diagnóstico veio dias depois, poucos, de viver a sua primeira paixão de…Inverno.
O gelo das palavras ditas pelo colega de ginecologia solidificaram-lhe o coração quente pela emoção de, pela primeira vez, ousar render-se ao presente, ousar viver um pouco sem as correntes dos princípios, ousar principiar-se sem fim… Mas foi exactamente a sensação de princípio do fim que lhe surgiu quando ouviu: Carcinoma…Fase II… Cancro da mama.
O choque tornou-a momentaneamente irracional. A sua postura sempre tão certa, sempre tão segura, diluiu-se em lágrimas e soluços…
Poderia mesmo estar a acontecer-lhe? A ela? A ela que nem fumava, que nunca se embriagara senão de emoções por ser tão intensa no viver e no dar, ela, que tão raramente adoecia, que tinha notável resistência, que passara quase metade da vida longe das loucuras e próxima dos livros, que praticara sempre desporto, que não se dava a excessos a não ser de afecto???…
Era a ela, sim, era a ela que o cancro rosa vinha tocar…
Claro que havia muitas outras elas, não era a única, claro, sabia-o…Mas, naquele momento, estava mais só que nunca…Era só ela e o que queria tirar de imediato de dentro de si…
Pediu a veracidade em relação ao futuro…com gelo. E com gelo ela lhe foi servida: temos que operar…primeiro, excisão do tecido cancerígeno na mama direita e nódulos linfáticos. Não sabemos se mastectomia…mastectomia.
Por ironia ela, sempre tão obsessiva na ortografia, escrevera mal, pela primeira vez, esta palavra num exame: masteocotomia. E, desde aí, sempre que a tinha que escrever, escrevia-a mal, talvez despropositada pela ansiedade ou propositada pelo destino, não se saberá. Mas era  como se a quisesse pronunciar lentamente. Como se, já antes de a conhecer na primeira pessoa, a quisesse pronunciar com o pensamento, mastigar, digerir…
Radioterapia? – Pôs de imediato na mesa a pergunta que, um segundo depois, lhe pareceu retórica. Mas como nenhuma pergunta é tão difícil quanto aquela cuja resposta é óbvia, o colega demorou na mesma, talvez já rendido àquele olhar solícito, longo, denso, que lhe pedia um não a saber que sim.
O sim veio nas entrelinhas dum eufemístico: “é quase certo!”… Ficou por ali. Imaginou-se de imediato deformada, sem o seu cabelo longo, sem pêlos, sem mulher fora e dentro dela. Mesmo que, mais calma, pensasse que talvez nem viesse a ser assim, era assim.
E despachou-se a resolver a data da operação, em Fevereiro, depois de aprontar notas, trabalhos por entregar, trabalhos por fazer. Demorou-se, muito, mesmo muito, no contar…
Contou apenas a três pessoas… Nenhuma delas óbvia. A última, aliás, foi a pessoa que tinha conhecido no final e princípio dos anos, o anterior e o presente, respectivamente.
Pessoa que a tinha feito sorrir, rir, brincar, que lhe tinha tirado o fôlego. Pareceu-lhe verdadeira a frase de que a vida não deveria ser medida pelo número de vezes que respiramos mas pelos lugares e momentos capazes de nos tirar o fôlego…E ele parecia tão boa pessoa. Tão meigo, doce. Mas complicado. Abandonante. Fugitivo.Fugidio. O sentimento de desamparo foi-lhe ainda mais pungente quando lhe entregou, em palavras, ao telefone, a razão de ser de, de repente, ela, fugidia também, se mostrar mais solícita, irracional, às vezes, pouco paciente, tanto.
Contou-lhe o diagnóstico sem conseguir conter as lágrimas…E foi ao ponto de, pouco mais tarde, lhe pedir o “impedível”, mesmo sabendo que iria deitar tudo a perder. Mas, como não se pode perder o que já está perdido, resolveu pedir. Pedir que naquele dia não houvesse impossíveis, só amor. Mas não houve o último e houve, como já era hábito, o primeiro.
A sensação de ridículo, mágoa, cansaço, estupidez, desistência definitiva, tocou-lhe como uma flecha. Abriu-se-lhe os olhos para o evidente, que sim, que há pessoas assim, que o mundo lá fora não é generoso nem justo como imaginara, que cada um vive para si e consigo e mais nada.
Felizmente, desistiu…Ou renunciou…Ou deixou…Ou…desinteressou-se.
Fez as pazes consigo própria: antes ser a flor pisada que o pé que pisa. Não se arrependera de nada mas também não desejava mais nada vindo dali. Jardim encerrado.
Concentrou-se em voltar à vida antes de a poder perder também. Havia tanto que valia tão mais a pena, tão mais o interesse dela, a atenção dela, o afecto dela.
Olhou em volta e viu as pessoas que lhe enchiam a vida e, verdadeiramente, a enchiam de vida. E, essas sim, valiam a pena, podia contar com elas incondicionalmente. Essas não lhe iriam dar impossíveis, só amor…
E, na verdade, sentiu-se e soube-se tão profundamente amada…
Continuou a acreditar que, enquanto houvesse estradas para andar, iria continuar.
 E decidiu-se por fazer valer cada dia neste mundo já que, como lhe diria uma amiga, mil no outro de nada valem. ..
E seguiu, ainda com o cancro rosa ao peito, mas sem deixar que ele lhe fizesse a vida negra…


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Dormir na Lua!!!...

“Mãe, podemos dormir na Lua?”


A sugestão surgiu assim…inesperada!!! De olhos postos no apetecível satélite que, hoje, se visualizava deitado no céu em forma de cama, a Bia suspirou a pergunta…

Apetecia-me responder-lhe que sim, que tinha tirado o Brevet de foguetão e hoje, podíamos ir lá dormir…Só para variar!!!!
Apetecia-me responder-lhe que até podíamos tomar lá o pequeno-almoço, que pegávamos nos pijamas e nos ursos e nas almofadas e…Bóra prá Lua, malta!!!
Apetecia-me responder: “Sim, Tiago, tu também podes vir mas não podes levar os beyblades! Os lunáticos ainda te ficam com eles e, quando regressares à Terra, já não te compro outros!!!
Apetecia-me responder: “Bem, vou pensar! Vou pensar se podes levar os Gormittis!! Mas tenho receio que algum E.T. se assuste!!! Ai filho, não podias gostar duns bonecos mais girinhos??? Esses estão sempre com cara de mauzões!!!!!!! “Não mãe, eu gosto destes “poque” eles “sobeviveram” ao “meteôíto” que matou os “dinossauos”!!! Eles são “fotes” e não são maus, sabias???””Não, não sabia…Mas não quero ser responsável por um ataque cardíaco, em plena Via Láctea, de algum extraterrestre…Não saberia como fazer um RCP! Bem, se calhar nem seria preciso se a criatura não tivesse coração!!! Não que fosse maldosa mas…”Oh mãe, vá lá!!!!”” Não…O foguetão já está cheio de tralha!!! Qualquer dia, confundem-no com a Toy´s-R-Us!!!”

Apetecia-me responder tudo isto…Mas, claro (?), não respondi…Limitei-me a ficar com a minha pequenina ao colo, de nariz colado à janela, a ouvirmos Mozart para…adormecer!!!

Confesso que também me apetecia ir à Lua…A esta Lua… À Lua de Hoje…Aquela que nos convida a deitar-nos sobre si…curva…fina…branca…Linda.

Apetecia-me hoje como me apetece tantas as vezes quantas aquelas em que já lá tenho a cabeça mas com os pés bem assentes na Terra!!!! Não saberia tão bem deixar de ter sempre os pés assentes e simplesmente estar na Lua…com o corpo todo????
Afinal, se já é tão bom andar com a cabeça na Lua, com a cabeça nas nuvens, quão melhor será se formos com cabeça, tronco e membros???
Mas, quanto mais a idade avança, mais a gravidade nos puxa (talvez porque o peso, como o Super-Ego, se adensam!!!) e mais os pés…assentam!!!

Mas sim, Bia… É uma boa sugestão… Podíamos ir lá dormir uma noite, amanhecíamos com o Planeta (ainda) Azul na esfera do olhar e, se nos “desse na telha”, ainda ficávamos para almoçar…Depois vínhamos…cedo…para não apanhar trânsito…Que a 2ª circular espacial é terrível!!! Pior que a terrena numa segunda à hora de ponta!!!
O quê??? Amanhã já é segunda???!!!  EU QUERO IR PRÁ LUA!!!!!



sábado, 29 de janeiro de 2011

Terra redonda...estradas direitas!!!!

-Oh mãe…Eu sei que a Terra é redonda…mas as estradas são direitas! Como é possível????

A pergunta foi do Tigas…A perplexidade foi minha!!!!
Como é que esta amostra de gente, este pirralhito de 4 anos, de pijama do Bob – O Constructor de 1,10m vestido, à beira do sono, de olhitos quase a fechar após ouvir a quarta história da noite, me vem com esta pergunta digna de um Cristóvão Colombo, de um Magalhães ou de um Vasco da Gama????
Na verdade, tínhamos exactamente estado a falar de…exploradores!!! Mas de exploradores completamente diferentes, não destes que se lançam aos monstrengos, que passam para lá do Bojador e para além da dor (como na sempre maravilhosa e deslumbrante Mensagem de Pessoa).
Na sequência de uma história sobre uns meninos que tinham ido fazer um piquenique, acabámos por combinar que, no dia seguinte, e na condição de fazer bom tempo, isto é, pouco vento, menos pingos e menos frio, iríamos fazer um piquenique à Arrábida.
A saída, sempre tão comum noutras estações, já vinha a ser adiada essencialmente devido a uns quantos senhores virús e donas bactérias que ousaram meter-se no caminho (e, mais propriamente, nos órgãos de função linfopoiética, tipicamente em forma de amêndoa, situados à entrada da garganta comummente designados por amígdalas embora ache mais engraçado designá-los eruditamente por tonsillas) dos…pequenotes.
De qualquer forma, sacrificadas que estavam, nos últimos dias, as duas miniaturas de gente (vulgo Tigas e Bibas!!!) à forçada retirada do ar-livre, circunscritas  à clausura do condomínio ou, até, nos dias de febre  altíssima, às quatro paredes do quarto, era mais do que justo uma saída comme il faut!!!!
O piquenique visualizava-se uma sugestão perfeita, principalmente porque é sempre acompanhado de uma palavra que este trio adora: Aventura!!!
Pusemo-nos logo a imaginar… Se chover, procuramos uma gruta para nos abrigarmos!!!! (E pensam logo os caríssimos “leitores”: não seria mais fácil um chapéu-de-chuva??? Seria…mas não é a mesma coisa!!!!:)
E se vier um trovão?- pergunta o Tigas.
-Oh, mãe, eu tenho muito medo de ver um dragão!!! – diz a Bibas.
-Não é Dragão, Bia, é trovão! – ri-se e esclarece o Tiago.
-Oh mãe, como é que surgem os trovões? – pergunta o Tiago.
Penso na questão. Pondero uma resposta animista a fim de a mesma ser convenientemente percebida pelos meus dois ouvintes que provavelmente ainda se encontram no estádio pré-operatório do desenvolvimento cognitivo.
Penso em responder:
“Filhos, os trovões aparecem quando duas nuvens, que estão muito cinzentas por terem tanta água dentro, dão um beijinho ou vão uma contra a outra, zangadas!”
Depois, questiono o que ponderei: “Dão um beijinho ou vão uma contra a outra, zangadas?” Mas o que é que eu lhes estou a ensinar em termos de conhecimento das relações amorosas e/ou interpessoais? Que dar um beijo ou zangar-se produz o mesmo efeito? Um choque, um raio?! Bem, na verdade, é…verdade!!! Ou pode ser verdade!!!! Raios (literalmente!!!), isto de educar é mesmo difícil.
E volto a re-ponderar: já sei que se lhes respondo isto, eles vão logo perguntar: Então como é que as nuvens dão beijinhos se não são pessoas (Tiago) e se não têm boca (Bia)?
Ou, então, perguntam: mas por que é que elas se zangam uma com a outra? Por que é que elas estão cheias de água? Como é que elas bebem tanta água? (Bia) – ( já agora, um parênteses: a Bia tem uma teoria muito gira para o facto de chover. Segundo ela, chove porque as nuvens, às vezes, quando está muito calor, ficam com muita sede e depois bebem muita, muita água. E depois ficam com a barriga tão cheia, tão cheia que têm de deitar a água fora e então chove!!! – atenção, não vamos pensar que as nuvens têm sistema digestivo e/ou excretor para não perdermos a beleza da teoria!!!!! Afinal, a minha meteorologista ou geofísica só tem 3 aninhos!!!).
Continuando…
Pondero então outra resposta. E arrisco a (medianamente) científica:
- Filhos, quando estão a brincar com os Beyblades lembram-se do que é que acontece quando eles chocam um com o outro?
- Sim… - respondem ambos, em uníssono.
- O que é que acontece?
- Fazem barulho…E podem fazer faísca! – responde o Tiago, entusiasmado com tal ideia pirómana!
- É isso mesmo!!! Com as nuvens acontece quase a mesma coisa…As nuvens às vezes chocam umas com as outras, como fazem os Beyblades. E quando chocam, se estiverem muito carregadas de água a ponto de ficarem cinzentas, fazem um grande barulho… Nós ouvimos muito barulho, assim… a trovejar…(imito o barulho mas não arrisco a escrever a onomatopeia!!! Aceito sugestões!!!!). E depois surge uma faísca, um raio muito grande!!! O trovão é isso!!!!
E suspiro de alívio quando, expectante pela reacção, o petiz diz:
-Ahhhhhhhhhhhhhh, então é isso!!!! Quando as nuvens chocam cheias de chuva fazem os trovões, é, mãe???
Aceno que sim com a cabeça …a trovejar!!!!

Continuando… Voltando ao piquenique…
O nome do grupo destes piqueniqueiros é: Exploradores!!!!!
Então a Bia pergunta:
- Oh mãe, mas eu sou à mesma Bia Simões?
- Sim Bia…És a Bia, a Exploradora.
- Como a Dora, a Exploradora? – compara a pequenina que, por acaso, é mesmo parecida, tanto nas características físicas como psíquicas, com ela!!!!
-Exactamente, filhota!!!!
-E posso levar a minha mochila e um mapa?
-Claro!!!
E assim vamos planeando a saída do dia seguinte, na esperança que não haja raios nem coriscos que nos impeçam de ir piquenicar… E, se houver, havemos de arranjar um carro-gruta para nos abrigar!!!!

Escusado será dizer que, ainda a 1\4 do plano e já a Bia não me ligava nenhuma, à conversa que estava com o João Pestana, a caminho do vale dos Sonhos.
O Tigas, esse, não lhe dá conversa!!! (Ao João Pestana, entenda-se!). Na verdade, e por características de personalidade, o Tigas só dá conversa a quem conhece muuuiiito bem (e desde que nasceu, ou melhor, ainda era um feto – uma vez que estava quase sempre a dar ares da sua graça de futebolista, andebolista, tenista, ciclista, etc.)e nunca foi muito à bola com o João Pestana visto que detesta dormir.
 O seu lamento todas as noites é: Mas por que é que a noite demora tanto!!!!! Eu não quero saber da Lua, nem das estrelas, nem de nada disso…Eu quero é que seja de dia para estar sempre a brincar!!!).

Fui, então, fazendo o plano da “aventura” com o "Tiago – o Explorador", que estava muito curioso em relação aos caminhos por onde iríamos, o que é que podíamos encontrar, etc, etc. Até que os olhitos do explorador, de binóculos já postos na imaginação, começam a fechar-se paulatinamente…

E eu suspiro mais uma vez e penso…"Já está, finalmente!!! Finalmente vou ter algum tempo para mim, para ler um bocadinho, para escrever um bocadinho, para passar pelo face só para matar saudades dos amigos que, a não ser na realidade virtual, não tenho tempo de ver." Olho para o relógio e, mesmo antes de me escandalizar com o avançado da hora (24.35h), pergunta-me o Tigas-Colombo com a pestana muito aberta:

- “Oh mãe, eu sei que a Terra é redonda…Mas as “estadas” são “dieitas”…Como é possível??”
Eu, com mais vontade de lhe perguntar como é que era possível ele ainda não estar a dormir do que de lhe responder ao paradoxo, lá suspirei pela terceira vez e concentrei-me numa resposta aceitável para o petiz:
“Oh filho…Essa é mesmo uma boa pergunta…Mas tu já devias estar a dormir…O que é que achas de ires pensando na resposta enquanto dormes e amanhã tentamos os dois responder, pode ser?”
- Oh mãe, mas como é que eu penso enquanto estou a “dormi”???? (O Tigas ainda não diz os “erres” antecedidos de consoantes e vogais, tipo o Cebolinha da Turma da Mônica, com a diferença que não os sublstituí por “l”. “Esclalecido”)
“Raios” -  pensei eu – “ao tentar fugir do problema meti-me noutro!!!” Tu já sabes, Mónica. Não fujas, confronta!!! É mesmo caso para se dizer: Quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos!!!
Que berbicacho!!!
Vamos lá, Mónica, coragem mamã!!!!
Arrisco a ciência, mais uma vez… O puto que se desenrasque!!!! (E não é que ele é mesmo desenrascado!!!!)
-Tigas, tu quando dormes não deixas de pensar…Por isso é que sonhas, não é? Tu já contaste muitos sonhos que tiveste!!! Isso quer dizer que tu também pensas quando estás a dormir!!! Pensas é de uma maneira um bocadinho diferente daquela quando estás acordado!
- Oh mãe, mas os sonhos são ideias esquisitas. E eu não “quéo” “tê” ideias esquisitas. Eu “quêo”” pensá” bem, “tas” a entendê, mãe???? (este discurso, com tantos erros ortográficos, já parece um discurso à moda do facebook – na verdade, vê-se lá tanta, tanta gente com idade cronológica adulta mas com uma idade mental tão infantil… Direi mesmo da idade do Tiago!!! Ou da Bia!!!)
-Acho que sim (!!!!!!!!!!!!!!!).
- Oh mãe, diz-me lá “poque” é que as “estadas” são “dieitas” se o Mundo é redondo…
- É uma pergunta difícil de responder filhote – confessei eu – mas vamos pensar os dois… Imagina que... (vou buscar uma bola saltitona)…Faz de conta que esta bola é o Mundo… Não, espera…Esta não dá, é muito pequenina…
(Passam cerca de dois minutos e regresso com uma bola nº 4 de futebol…)

- Faz de conta que esta bola é a Terra… Estás a ver o Tarzan (era o bonequinho mais pequenino que encontrei – fui buscá-lo, tanto em sentido literal como figurado,  à selva!!!! – à Selva do Tarzan – os miúdos conhecem bem!!! E os publicitários também!!!). Se o Tarzan quiser ir daqui até aqui – percurso de cerca de 1cm – achas que ele vê a “estrada” direita ou inclinada/arredondada?
- Acho que vê direita.
-Pois, também acho. À medida que o Tarzan anda, vai sempre ver a estrada direita. É o que ele vê… Mas ela não é bem direita… Ele é que a vê assim... É como nós quando vamos por uma estrada em linha recta…Quer dizer, quando vamos por uma estrada que nos parece…direita!!! (já estava mesmo atrapalhada!!!)…
- Nós vemos assim mas se “calhá” não é assim de “vedade”?
- É isso, filho – respiro de alívio pelo “Tiago-112”me ter salvo da atrapalhação mas, contudo, não completamente segura da minha explicação – Amanhã a mãe mostra-te um livro e pensamos melhor, está bem?
- Sim, mãe…Mas… “Poque” é que o Tazan cai da bola quando anda e nós não caímos do Mundo “paa” o espaço?
- Boa pergunta… É por causa de uma força que se chama força da gravidade que é muito, muito forte e não nos deixa cair para o espaço…A mãe depois explica melhor, filho…Agora vamos dormir…
E o Tigas lá adormeceu… Por certo, já cansado das explicações a meio-gás da mãe-pestana!!!!
Mas, enfim, é o que se consegue dado o adiantado da hora e com a gravidade a empurrar-nos as pálpebras em direcção ao…centro da Terra!!!









Nota: Aceitam-se sugestões para explicações de Física para 4 anos de idade e geofísica para os 3 anos!!!! J (Buli, estás convocado!!!!)