segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ESPERAR(ANÇA)

 

 

 

A esperança é um sentimento crucial nas nossas vidas...

Difere da "espera". A espera é de coisas materiais... Espera-se por comboios, autocarros...Ter esperança é outra coisa!!!! A esperança é conseguir seguir caminho, inventar outra saída...

 Mesmo que o comboio não chegue, podemos aprender com isso e, até, tirar partido disso.

Esperar, simplesmente esperar, ou somente "ter paciência",  não nos dá, nem saídas criativas, nem atalhos,  nem  alternativas,  nem soluções, nem caminhos.

Esperar dá-nos mais do mesmo: o mesmo comboio, a mesma (in)quieta estação.

Por isso, esperar sem esperança, sem projecto, sem crença, de nada vale.

A esperança, ao contrário da espera, abre horizontes e dá sentido ao que acontece.

É a esperança, sobretudo ela, que não podemos perder...

Quanto aos comboios, esses, há muitos!!!! 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Quem me sacode???!!!

Relato(s) da Bia sobre as férias com os avós:

"Mãe, sabias que eu e o Tiago fomos andar de barco???


 - Foi querida?! Que bom!!!! E o que é que viste quando foste andar de barco?

 - Vi muitos peixinhos...Alguns até abriam a boca com sono... E vi muitas ondas...E vi barcos de piratas!!!

 - Barcos de piratas???!!!! A sério?

- Sim... Eram piratas de verdade mas tinham os tesouros VAZIOS! E um pirata até caiu ao mar e gritou: "Socorro, Socorrro, quem me SACODE??!!!! " :)






Piolhos, Piaget e dons-quixotes...


Admito que sim…

Admito, sobretudo, que sou…

Sim, sou-o!!!

Sou uma “dom-quixote” e, simultaneamente, uma “sancho-pança” (melhor diria, actualmente, uma "sancho-poupança"!) que luta por causas perdidas, ou melhor, causas minúsculas, microscópicas, invisíveis, até!!!! Mas que, literalmente, me fazem muita comichão intelectual!!! E sou, também, uma piagetiana acérrima que acredita que a capacidade de se colocar no lugar do outro é um dos expoentes máximos de desenvolvimento moral e, simultaneamente, cognitivo.

Ou não tivesse eu dado comigo a ser uma acérrima defensora dos…piolhos!!!!

Isso mesmo!!!! E não, não estou a falar dos meus filhos, mas sim das  criaturas saltitantes que armaram tenda, vivenda, quiosque e apartamento T3, T4 e T5 (com direito a vista privilegiada para cabelos loiros e afins) nas suas cabeças!!!!

Como é que alguém pode ser uma defensora dos piolhos???!!!! Pois, não faz sentido!!! O meu piolho Tiago também discorda que eu o seja, a minha piolha Bia ainda mais e o resto do mundo nem se fala…

Mas eu explico…

Enquanto escolhia aquele que pensava ser o melhor produto para combater a dita praga, fui confrontada com um anúncio publicitário me colocou face a vários dilemas morais, existenciais e…abdominais!!!!

O tal anúncio promete ser uma bomba atómica aniquiladora dos tais piolhitos, promete matá-los e não só!!!! Não se limita a uma morte qualquer… Promete um teatro de matança…Promete-lhes uma morte épica, fulgurante, explosiva, com requintes de perversão… Promete “rebentá-los”, “fazê-los explodir”, “fazê-los guinchar até morrer” e outros pormenores, numa gradação tétrica de fazer delirar de prazer os mais sádicos pediculóficos.

E quem é que promete tais façanhas??? Uma criança… Nove anos… Não terá mais, a julgar pela frescura da voz!!!

Sei que, para um ser humano normal dotado de normal instinto para a maternidade e proteção dos couros cabeludos das respectivas crias, tal anúncio irá fazê-lo regozijar-se de alegria… A mim fez-me regurgitar… Pois, não é normal, bem sei!!!

O que é prioritário é salvar a cabeça dos putos e não a vida dos piolhos, nem que para isso tenha que regredir dois estádios na escada desenvolvimento moral kohlberguiano ou, em nomenclatura piagetiana, passar de uma moralidade autónoma para uma moralidade completamente heterónoma.

Mas não consigo ser uma mãe normal e, pior, não consigo ser um ser humano simples, pragmático e predatório. Nem em questões de mera pediculose, caramba!!!!

Sou sensível até à medula e ouvir uma criança, num anúncio para piolhos, dizer, com nuances psicopáticas, que adora vê-los (aos piolhos) explodir, rebentar… Que os massacra todos, que os faz guinchar!!! Desculpem-me os fanáticos da higiene mas não suporto ouvir tais termos aplicados a criaturas vivas!!! Nem mesmo a piolhos!!!!

Imagino logo um holocausto ou um massacre norueguês na cabeça dos meus filhos mal lhes ponha aquela bomba de gaz anti-pediculose.

Sei que exagero nas comparações e na sensibilidade mas o respeito pela vida não se faz apenas à nossa escala ou em dimensões macroscópicas.

Ter prazer em fazer rebentar um piolho, em fazê-lo explodir, guinchar não é, em última análise, diferente do prazer de ver um Toiro estrebuchar de dor numa arena ou sentir prazer quando o outro cai, quando o outro se magoa, quando o outro sangra. Por isso é que ainda prefiro as “sestas bravas” às “festas bravas” (vide excelente cartoon abaixo).

Por isso é que, se tenho que escolher um produto para a pediculose, não escolho, certamente, aquele que apela a uma morte violenta dos pobres bicharocos mas sim a um que proteja a cabeça dos meus “piolhos” de futuras infestações e que proteja, simultaneamente, os mares e oceanos quando vai pelo ralo abaixo, não intoxicando os pobres dos peixes e algas que nada têm a ver com os piolhos do Tiago e da Bia.

Nesses prazeres eu não alinho. Para esses prazeres, eu não educo.

Primeiro, porque não quero educar sacanas morais.

Segundo, porque não educo futuros psicopatas.

Terceiro, porque sou uma mãe “dom-quixote-sancho-pança” que ainda pensa que vale a pena lutar por certos valores… Principalmente pelo respeito pela vida e pela capacidade de se colocar no lugar do outro…Mesmo que estes valores sejam, cada vezes mais, meras miragens e castelos de vento. E mesmo que esses “outros” sejam minúsculos… Mas isto sou eu…E mais uns quantos piolhos!!!!






segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ventre de Mulher- Mãe

The best thing about me is you...



Há plurais que nos tornam mais singulares…

Posso dizê-lo, já sem o receio dos lugares comuns, que a minha singularidade como mulher cresceu quando do meu ventre nasceu vida…

Ter uma vida a crescer dentro de nós é algo tão múltiplo e, ao mesmo tempo, tão singular que se torna, por vezes, impermeável aos símbolos verbais…

É, acima de tudo, uma vivência de intimidade tão densa e profunda que só cabe no tamanho infinito da palavra Amor…
Efectivamente, quando uma Mulher nasce Mãe sente nascer em si a dádiva do corpo em Amor para em Amor outro corpo nascer para o Mundo.

E não é apenas o ventre que se expande… É também o coração…

Porque é também aí que uma criança nasce…no coração!!!!!

Razão tinha a minha princesa Bia quando desenhou, na creche, um desenho para o Dia da Mãe e colocou dentro da minha suposta figura uma bebé, não no lugar da barriga, mas no lugar do coração…

 E disse à Educadora:

Esta é a minha mãe comigo lá dentro. Nós estamos sempre as duas. Uma mãe é uma pessoa que dá beijinhos bons que cheiram bem, que dão para adormecer ou para acordar e que traz sempre bebés no coração!!!!

Neste parágrafo, a Bia, com a sabedoria pueril e terna dos seus três anos, conseguiu resumir o mistério e o milagre da maternidade inteira…
Uma mãe é alguém que, vá para onde for, tenha a idade que tiver, levará sempre o seu filho no coração.

Porque este amor é um amor tão imune ao tempo e ao espaço que, tenha o seu bebé a idade e o tamanho que tiver, ele caberá sempre nessa casa de infinitas assoalhadas e nesse espaço cardíaco infinitamente elástico e musculado.

E ela dar-lhe-á sempre o mesmo beijinho bom e cheiroso… Seja para o acordar para a vida… Seja para o adormecer, talvez porque o seu pequeno esteja hoje cansado das brincadeiras ou das partidas que esta lhe pregou…

Quando de um ventre nasce uma vida é como se no corpo inteiro se sentisse o nascer do Sol… E há então outras estrelas de uma Via Láctea desconhecida que se acendem dentro de todos os compartimentos da alma e em todos os corredores e orifícios do coração e muito dificilmente se apagam, independentemente da espessura das noites lá fora…

É como uma vela em combustão constante dentro da alma, sempre disposta a acender quaisquer outras que se apaguem pelas correntes de ar da vida…

Talvez por isso uma mulher, a partir do momento em que dá à luz, ganhe outra luminosidade. Uma luz própria, como as estrelas.
Triste é que, por vezes, a tentem apagar ou a escondam na sombra e façam com que elas próprias se desvalorizem a ponto de se ensombrarem…
Uma mulher, quando é mãe, ganha outra dimensão do feminino. Não me parece que perca sensualidade como por vezes se ouve. Não me parece que perca encanto. Não me parece que perca interesse. Não me parece que perca feminilidade.

Pelo contrário. Ganha. E ganha outro fascínio mas que só quem tem o olhar treinado, o talento devido, as lentes próprias consegue admirar.

Infelizmente, ainda são raras essas lentes. Exigem a espessura da inteligência, da compreensão de toda a profundidade do denso e misterioso universo feminino que tantas vezes assusta e intimida.
Infelizmente, também,  muitas mulheres sentem-se corrosivamente diminuídas a partir do momento em que são mães.
Como se, pelo facto de passarem a ser mães, se anulassem como mulheres. Porque, de facto, é assim que muitas vezes os outros as tratam, é esse o rótulo aplicado. Nada mais errado. Nada mais injusto. Nada mais perverso.

O ser mãe não é um decréscimo da feminilidade. É um superlativo.

Uma mulher que é mãe é também uma mulher que conhece, na primeira pessoa, o verdadeiro significado das palavras luta, amor, paz, dádiva, fé, coragem, regeneração, metamorfose, afecto, infinito, milagre.

E isto é de uma grandeza enorme. Isto vale mais que
cremes para as rugas, operações plásticas, ausência de celulite, estrias e afins… E não há que ter vergonha. Pelo contrário.

Um bom creme encontra-se em qualquer loja mas uma boa mãe não. E, isso sim, é um ícone da verdadeira beleza pessoal e mesmo feminina… é uma bandeira, um estandarte!!!!

Tantas vezes se diz também que o próprio corpo de uma mulher fica destruído depois de ter filhos…

Destruído????!!!!
Meu Deus!!!! Estamos a falar como se se tratasse de um acto de guerra, como se um corpo tivesse sido mutilado…

Não estou a negar que as dores são quase insuportáveis…Mas têm um propósito, um motivo: gerar vida. Para mim, o que é insuportável é o sofrimento que parece não ter propósito nenhum, que não leva a nenhum lado a não ser, muitas vezes, a destruição. Esse sim, dói  verdadeiramente.

E não é um acto de guerra. É de paz. A vida não está contra nós. Está só e apenas a nosso favor. A nosso e dos nossos pequeninos…

O corpo transforma-se???
Claro que se transforma. AINDA BEM!!!! Pior seria se não se transformasse!!!! Aí seria impossível gerar uma criança, alimentá-la, dar-lhe vida, espaço, casa, sala de brincar, quarto e cozinha dentro de nós.

Se a anca mais larga, o peito mais descaído, o ventre mais saliente forem a prova que se foi capaz de conceber esse milagre de trazer cá dentro, durante nove meses, um ser humano, de o alimentar apenas com o nosso leite durante mais seis meses, qual é a vergonha???? Em que é que esse corpo é menos bonito ou menos feminino? É um corpo que teve o dom de se adaptar a uma vida… É um corpo que se regenera… É UM CORPO QUE FUNCIONA… Isso não é belo????

Se não tivéssemos um corpo capaz de conceber, infértil, isso sim, não seria verdadeiramente triste, motivo de infelicidade?

E quantas vezes não é exactamente pelo facto de estarem zangadas com o seu próprio corpo que muitas mulheres o maltratam ainda mais… Nada nos é dado de mão beijada e se não gostamos do corpo que temos ele também não gosta de nós.

Se não o beijamos, ele não nos beija. Se não o mimamos, ele não nos mima. Se o intoxicamos com má comida, suplementos de banha da cobra que prometem milagres de emagrecimento, ele fica envenenado, incha. Se não o movemos, ele paraliza. A forma de lhe agradecermos por nos ter ajudado a dar à luz é ajudá-lo a brilhar… É pô-lo em movimento, dar-lhe os mimos que ele gosta: ginástica, fruta, água, amor, alegria e natureza!!!!!

É preciso, pois, amar o ventre e o coração que temos… Não interessa a forma…Interessa a função…

O meu ventre foi, durante nove meses, o casulo de duas lindas borboletas que os meus filhos são hoje… Borboletas risonhas de espanto, coloridas de sonhos, curiosidade, encanto e vida, com olhares sempre saltitantes e voadores,  longas pestanas escuras e asas longas como as dos anjos.

O meu corpo, a minha força, a minha alma,dedicaram-se e dedicam-se, em grande parte, ao cumprimento da promessa de conforto calmo e feliz que o meu ventre lhes prometeu durante nove meses, quando eles ainda não voavam e cresciam dentro de mim…

Sim, porque dentro de mim existia um oceano e a parede do meu útero era um universo cujas estrelas eram os pontos cintilantes dos ecos da minha voz, dos meus risos,  da minha alegria por os ter a cintilar dentro de mim…

O meu ventre foi um país misterioso onde não havia lágrimas nem sede nem fome, onde cresceram príncipes sem medo e princesas que são felizes  na eternidade dos momentos sem a mentira do “para sempre”…

Dele floresceram olhares suaves como pétalas, sorrisos encantados e cheirosos como morangos e bochechinhas de cereja…

Por isso, o ventre de uma mulher, deve ser respeitado, cuidado e amado…

Por ela…Pelos outros…

O seu ventre, tenha a forma que tiver, é o seu maior milagre…

Porque é aí, nesse ninho suave e quente feito de uma perfeição sem nome, que se gera a vida que justifica a vida.

Porque é também aí que se guardam…corações!!!!







sexta-feira, 17 de junho de 2011

O teu Nordeste...

Querido Pai…

Toda a terra da minha alma estremeceu em mim esta manhã quando soube  tinhas ido para o hospital… Talvez porque a doença seja um território tão raro em ti, a ponto de quase o desconhecer,  senti o tumulto do susto e do medo.
Senti, epicentralmente, a fragilidade do adquirido, senti o quanto tu, sempre tão forte, tão determinado, tão presente na minha vida, poderias um dia, um dia, qualquer dia, estar ausente…
A ideia arrepiou-me como uma brisa de Janeiro em pleno Junho. Tu, que, de mão e braço e coração dado à mãe, sempre soubeste ser o meu Norte.. E Sul e Este e Oeste…Tu, que sempre foste a minha referência de vida, de pensamento, de valores...Os meus pontos cardeais...e vitais. E que soubeste, como ninguém, personificar, com a tua carismática e magnífica personalidade, o TEU (e, mais tarde, NOSSO) NORDESTE açoriano…
O Nordeste dos teus Açores…O Nordeste da tua amada e natal ilha de São Miguel…
 Porque só tu, tal como o Nordeste único que  me soubeste mostrar em cada quilómetro quadrado de calma, és a junção do esplendor das altas arribas da costa nordestina, medidas com o olhar no adro da Igreja da Achada, quando revelas toda a tua sabedoria, lucidez intransigente e clarividência, aliada à tua demorada ternura e extrema delicadeza, toda ela tão condizente com os entardeceres no porto da Caloura…
Por vezes, és reflexivo, contido, denso e silencioso, como as extensas matas de Criptomérias da Tronqueira…
Outras vezes há em que te revelas tão sorridente, em que ris tanto, sorris e encantas com as palavras com uma boa-disposição tão social e contagiante que faz lembrar os bailados das gaivotas na sua pesca vespertina. Ou mesmo o sonoro e alegre regresso aos ninhos dos canários, tentilhões e melros aquando do ocaso na zona do Castelo Branco.
Raramente, mas só muito, muito raramente, te vejo irritado. Só ferves como as fumarolas das Furnas quando te apercebes de alguma injustiça…Particularmente de patrões para com trabalhadores… És uma pessoa justa e bondosa até à medula, pai… E é tão injusto que estejas agora a sofrer…
Sei que não posso evitar nem amenizar essas dores tanto como gostaria… E sei que, por agora, terás que repousar muito…Se não, sabes o que me apetecia???? Pegava em ti e na mãe (depois dela acabar o último exame) e nos teus netinhos e embarcávamos para São Miguel… Gostava imenso…Mas não posso porque tu não podes…
Como também não posso trazer até ao teu olhar os 745km2 de São Miguel.
Mas, em alternativa, levar-te-ei hoje, além de revistas para entreteres as vistas, a certeza que és o melhor Pai do Continente e Ilhas!!!!
E levo-te o que guardo ainda em mim do teu, que é já nosso, Nordeste!!! Levo-te as memórias do mar que lá se interrompe nas escarpas… Levo as ruelas…Levo os lugares, cantos ,recantos e momentos raramente inclusos nos roteiros turísticos.

Levo o cheiro forte, persistente, a mistura de dez, cem, mil essências… Levo as manchas esparsas de poejo, macela, murta, giesta… Levo as Uvas-de-cheiro que sabem ao cheiro que lhes dá nome…Levo as casas solarengas, algumas quase dos finais do Séc. XVIII…Levo as tuas citações sempre pertinentes do cronista Gaspar Frutuoso.
Levo as Lagoas. Levo o olhar encharcado de espanto.

E levo o que sempre me ficou e agora se me reinventou… O que só os Açores têm e que deveria ser Património da Humanidade!!!! Aquele azul e verde!!! Aquele azul e verde que ficam para sempre na retina do olhar e se multiplicam no coração da memória em reinvenções de harmonia cromática…Combinações de verde que só se encontram na alma e no olhar dos Açores… E nas pontas da Madrugada e do Sossego.

Levar-te-ei tudo isso para saberes o tanto e tão belo que tens deixado em mim…Fora o resto…Que é tanto!!!
 Adoro-te Pai!!!!
E melhora depressa!!!! Temos ainda muitas viagens para fazer!!!!
Até já!!!















sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sem palavras...

Ex abundanctia enim cordis os loquitur…

Há pessoas assim… Raras…Muito raras… Pessoas que nos deixam sem palavras… Pessoas que nos deslumbram, encantam, fazem rir e sorrir e voltar a rir, pessoas que nos emocionam pelo tanto que nos dão e pelo tanto que…são!!!!
Pessoas que nos fazem sentir vontade de sentir... E vontade de dizer…tanta coisa... E, talvez por isso mesmo, nos esgotam adjectivos antes mesmo deles ousarem vibrar as cordas vocais… De facto,  quando o deslumbre é grande, a palavra fica sempre aquém… É a vida que vale… O momento…A fotografia tirada com a alma…com o corpo…com o coração… com o nosso ser inteiro…
As pessoas que nos deixam sem palavras são essas raras pessoas que nos falam com uma musicalidade única, uma prosódia diferente… Terna. Sábia.

São essas raras pessoas que às paisagens já gastas, lhes acrescentam outras cores, outras flores, outros contornos…Que lhes acrescentam planícies, se estivermos cansados de subir montanhas, que lhes acrescentam vales, se quisermos rebolar na relva, que nos fazem um convite aos olhos para nelas voltarmos a passear…

São essas raras pessoas que, tão natural e espontaneamente, nos puxam a alma para dançar, que nos entrelaçam os dedos ao coração e que dão às razões da vida outra nova Razão…
São pessoas que sabem Estar de uma forma maravilhosa… Que não precisam de se fazer notar para se fazerem distinguir… E são, de facto, muitas vezes nos gestos mínimos,  pessoas tão distintas… Na forma como estão com os outros e com elas próprias…  Na forma tão bonita e simples e elegante e generosa e bondosa como tratam os outros… Na forma como são…Como sabem ser… Em todos os momentos… Nos momentos triviais ou complexos… Seja num simples pedido de maionese ou debaixo de uma ameaça de temporal e inundações… Mesmo aí, a genialidade mantém-se… a calma…o cuidado…a preocupação com o outro…a meiguice…a boa disposição… Tudo, enfim, o que as torna tão…Especialmente Speachless!!!!
São pessoas de alma e olhar cheio… Um olhar denso, por vezes onde cabe todo o Atlântico…Outras vezes, um olhar tão transparente e terno como as ondas que se espraiam na Arrábida…
São pessoas de alma plena que, em breves momentos, nos revelam certezas de uma vida inteira…

São pessoas que nos aparecem na vida como que por milagre…Podem ficar ou não… Talvez isso não seja o mais importante… Importa que apareceram…Que estão…Que, quando estão, nos dão momentos que têm o sabor da eternidade.  E que, quando estão, têm uma capacidade única de nos deixar uma maravilhosa sensação de paz … Tão diferente…E tão simplesmente por…existirem. É uma sensação muito boa.  É revelador quando estamos perante alguém com quem sentimos uma sensação imediata de que não é preciso acrescentar nada…nem tirar nada…nem mudar nada… Está lá tudo.

Isto impõe uma breve reflexão porque, efectivamente, tantas relações há em que as pessoas parecem mais decoradores de interiores do que propriamente parceiros de uma relação: sempre a tentar mudar as peças do sítio, sempre a tentar mudar o outro…sempre em permanentemente estado de insatisfação… nada mais triste!!!! Quantas e quantas vezes se muda o exterior numa necessidade imensa de mudar o interior… Tenta-se mudar o outro incessantemente, moldá-lo aos nossos desejos quantas vezes insensatos…Mas será que o outro que estará assim tão mal????? Será que o outro precisa de tanta remodelação????

Não será que seremos nós meros arquitectos frustrados que aprisionamos o outro ao nosso próprio projecto interminável? Quantas vezes, nas relações, não se age absurdamente como se fossemos um náufrago do Titanic em que, mesmo sabendo que o navio está a ir ao fundo, só nos preocupamos em arranjar a disposição das espreguiçadeiras???? Preocupamo-nos com a aparência exterior, em pôr tudo bonito aos olhos dos outros, negando que o próprio navio já está no fundo… Infelizmente, há tantas relações assim… que se vão prolongando por ser tão difícil saber qual o meridiano que separa o normal da insensatez, qual a linha do equador que separa o positivo da alienação… Felizmente, mesmo uma relação pode ser um segmento de recta e não uma recta ad infinitum…Em algumas relações, é bom que assim seja… Outras há que são eternas… Independentemente do tempo que durem…

Ainda em relação à disposição das espreguiçadeiras…
Acontece que estas raras pessoas estão-se pouco importando para as espreguiçadeiras… na verdade, elas salvam pessoas!!! E ensinam a salvar pessoas!!!! Aliás, estas raras pessoas que nos deixam sem palavras estão sempre a ensinar uma grande lição: são as pessoas que importam!!!! AS PESSOAS!!! E estas raras pessoas praticam, na vida, o que ensinam!!!! Porque importam-se verdadeiramente com os outros. E por isso sabe tão bem estar perto delas… Com elas!!!!

São estas pessoas que merecem tantas e tantas palavras… Mas, para elas, esta linguagem não chega… Não tem a devida dimensão…
Para essa e essas pessoas  seria mesmo preciso inventar outra linguagem…uma sintaxe do coração!!!!
Como  gostaria de a inventar quando o meu Doutoramento terminar!!!!! :)









sexta-feira, 13 de maio de 2011

As pequenas coisas...

“Pertencemos ao lugar aonde queremos ir” Wernher Von Braun

Viajar sempre foi, para mim, a par de um enorme prazer, um enormíssimo exercício filosófico ou, se se quiser, de reflexão pessoal…
E, isto, não tanto pela variedade e riqueza das experiências que, inerentemente, se lhe conotam mas essencialmente  pelo simplicíssimo acto de…fazer a mala!!!!
Nada mais simples, pensarão alguns!!! Nada mais filosófica, psicológica e pragmaticamente complicado, arriscarei eu!!!! 
Isto, claro, se se quiser fazer uma mala “à moda da Mónica”!!!!  Ou seja, paradoxalmente, uma mala que não leva coisa nenhuma e leva tudo de cada pequenina coisa que dá sentido à pequenina vida da pequenina Mónica!!!!
Quais bens essenciais, quais quê????!!!! Ele é os últimos bonequinhos de plasticina que os filhotes lhe fizeram, ele é os desenhos, ele é fotografias, ele é Bakugans, ele é a escova da Kitty da Bia em vez da escova da Mónica como devia ser até porque a escova da gatinha é diminuta para o cabelo já longo da mamã!!!
Ele é livros e mais livros e, vá lá, uns interiores, os kits de higiene, o essencial do vestuário feminino e…é só!!!! Claro que, chegada ao destino, se adivinha o desfecho: falta tudo!!!!  Mas na verdade, não falta nada!!!! É que não falta mesmo nada!!!!

Haja imaginação e a coisa vai lá!!!! Venham os imprevistos que a gente está cá para os enfrentar… de mala vazia mas de coração cheio!!!!

De facto, quando faço a mala, o essencial nunca vai lá: vai cá dentro, na maior mala, na maior mochila que existe e que nos permite acampar em qualquer lado – o Coração!!!! Tem espaço e divisões para tudo!!!!  

E há outra mochila ultra prática que também costuma andar sempre connosco (pelo menos até uma certa idade!!!!) e que dá sempre jeito levar – chama-se Memória!!!!

 E tem imenso espaço também, se soubermos criar as gavetinhas, as pastas e os ficheiros certos para que a informação a longo, médio e curto prazo não se misture e seja facilmente recuperada!!!!

Estas duas mochilas têm-me dado um jeitaço!!! É nelas que levo as grandes coisas!!! O essencial!!!! Para viajar, para sobreviver, para viver!!!!

É lá que encaixo a minha Identidade, o meu Presente, o meu Passado, os sorrisos que guardei, atitudes genuinamente bondosas a que assisti, frases bonitas que ouvi ou li e que me fortaleceram paulatinamente, gestos, momentos únicos,  o que dei, o tanto que recebi, o que aprendi mas também o que tenho vontade de aprender, os meus sonhos, a minha esperança…
No fundo, leva-se nestas duas mochilas a vida que cabe dentro de nós e aquela que esperamos que ainda venha a caber… e a sobrar!!!!
Na verdade, sempre pensei isto: haja esperança, vontade de futuro e haverá viagem…uma boa viagem!!!  Mais pão, menos pão, mais bife, menos bife (no que me toca, neste caso não há grande problema!!!), o corpo aguenta… Mas sem esperança…(e água, claro!!!) Hum, Hum… Não há alma que suporte uma viagem num corpo cujo coração não acredita em nenhum futuro, não deseja nenhum desejo, não sonha nenhum sonho…

Disse Nietzsche, e, na minha modesta opinião, tão bem, que “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar qualquer como”.
E, efectivamente, o que por vezes nos permite enfrentar estes “comos” da vida são as pequenas coisas… As tais pequenas GRANDES coisas que, não sendo abstractas, têm mesmo que ir na mala de mão!!!
E então lá vai a mala carregada de plasticina… em viagem para mais um congresso, para uma conferência, palestra, workshop ou mesmo só em lazer (preciso tanto desta última alternativa!!!!!)…
Chega-se lá e, claro… Onde é que está um secador de jeito???? E um anti-transpirante??? (essencial quando se vai falar em público, não?????)
E…Oh… Não… As meias… Collants (entenda-se!!!)… Bem… Ainda se tem tempo para ir ao supermercado mais próximo???? Bomba de gasolina???? Anything????? Não faz mal… Também…Está tanto calor!!! Se não tivesse trazido a pen seria pior!!!!
Já agora, a pen????????????!!!!!!!!!! UFFFFFFFF…Aqui está ela!!!!
Claro, com um bocado de plasticina colada!!!! Esperemos que funcione!!!  Valha-nos Deus!!!! E a Virgem Maria!!!
Obrigada, Obrigada, Obrigada!!! Tudo certo!!! Vamos lá!!! Um bocadinho despenteada, sem meias mas com a matéria bem composta!!!! E bem disposta!!!!
Ai, espera… falta uma fotografia dos pequerruchos!!!
Uma pequena coisa!!!! Mas sempre...essencial!!!!