quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O sol entre as mãos...


Du gleichst dem geist den du degreifst.*
                                                  Goethe


 Viver pode ser um verbo simples… Fácil de conjugar, até. Com felicidade leve. Daquela que existe só por se existir. Num mesmo Tempo. Num mesmo Espaço. Na mesma humanidade. Para lá dos compromissos profissionais. Para lá das lutas políticas. E religiosas. E profanas. E mundanas. E imundas.

Viver pode ser simples… Mas no atropelo dos dias, não é. Viver chega-nos  como um verbo ofegante, carregado de pretensões insaciáveis, responsabilidades sempre urgentes e sempre indeclináveis e a desapossar-nos, imagine-se, da essência dele próprio, ou seja, da vida que nos pertence… Em suma,  chega-se-nos inconjugável…

Vivemos certos paradoxos que poderiam até ser curiosos se não tocassem, por vezes, o bizarro: Se é verdade que, por um lado, vivemos numa contínua correria “vital” na qual engolimos dias, horas e minutos  numa espécie de “fast-food daily-life” sem disso retirarmos qualquer prazer essencial ou mesmo qualquer evolução fundamental, numa espécie de retrocesso neodarwiniano, o certo é que, por outro, vivemos submersos  numa espécie de ilusão neurótica  de intemporalidade. 

Todos corremos mas, paradoxalmente, todos adiamos. Todos adiamos afectos, todos adiamos sonhos, todos adiamos vidas exactamente porque vivemos nessa absurda ilusão de que lá para a frente, não sabemos quando nem onde nos esperam dias ou minutos gourmet.  E nisto, conscientemente insatisfeitos mas funcionantes, impotentes para mudar o presente mas com uma espécie de ilusão omnipotente em relação ao futuro, vivemos a adiar-nos, a adiar calmas, gentilezas, demoras no estar, a adiar o tempo e os tempos para os outros, as conversas, os abraços, um pousar de silêncios e olhares sobre um mesmo pedaço ou instante do mundo, os sorrisos sem horas contadas, o amor até. Vivemos a adiar o melhor da nossa humanidade ad eternum, a refugiamo-nos nas nossas vidinhas esgotantes e esgotadas, apressantes e apressadas, cada vez mais diminuídas dentro do cansaço dos relógios e dos batimentos cardíacos para lá de acelerados que, tantas vezes, rebentam e ferem a alma de quem mais gostamos... Vivemos, tantas e tantas vezes, contra-natura, contra nós e contra os outros e, sobretudo, contra o melhor que podemos ser. 
Este paradoxo leva a que, muitas vezes, ao invés de crescermos por dentro e nos prolongarmos na simplicidade e autenticidade dos afectos, nos diminuamos e isolemos na complexidade das  zangas que, essas sim,  adiam e afastam, por vezes aburda e irreversivelmente, o melhor de nós e que, no fundo, se comparadas com o tanto que temos cá dentro só nos deveriam serviar para aprender que a verdadeira zanga que vale a pena é...zangar-nos com a própria zanga! 

 Não é que a vida, ela própria, não se queixe!!! E que não se esforce por nos abrir os olhos!!! Ela bem nos surpreende!!! E muitas vezes com oportunidades únicas de mudança!!! Ela bem nos desafia!!! Ela bem nos confronta ora com situações ou coincidências únicas, ora com dilemas mais difíceis de resolver do que a equação do teorema de Fermat, ora com aquilo que é pegar ou largar!!! Mas estamos tão ancorados ao familiar e à ideia que temos de nós próprios ou do que a vida deve ser que não concebemos nenhuma hipótese de mudar ou de viver uma situação diferente. Outras vezes, permanecemos ancorados por medo das tempestades, o que acaba por não nos permitir antever quaisquer raios de sol.

Mas a verdade é que se vivermos ancorados nunca chegamos perto de nenhum horizonte senão o do próprio medo que, ele sim, nos encurta e escurece cada vez mais a retina e a alma. E a vida não só tem muitos futuros como pode ter muito mais vida para lá da vida  que lhe damos. O verbo viver é, apesar de singular, cheio de pluralidades, ainda que de duração única e limitada… E é, por isso mesmo, que faz todo o sentido agarrar, com um genuíno olhar de maravilha, cada raio de sol que nos vem parar entre as mãos.

Porque o que realmente faz demorar uma vida, seja dentro de um relógio seja dentro de um coração, é a dimensão da nossa vida interior…E essa, constrói-se quando verdadeiramente convivemos com o essencial…Constrói-se nos tempos reais da relação com os outros.  Constrói-se na experiência de comunhão. De bondade. De autenticidade. Constrói-se sempre que nos comovemos, sempre que amamos, criamos, sofremos, partilhamos, alegramos, entristecemos, falamos, silenciamos, reconstruímos, melhoramos e crescemos dentro do nosso tamanho… Viver pode pois, e deve ser, um verbo simples… De sol feito. Entre as mãos.
 *Assemelhas-te ao pensamento que concebes.
 

                                      

 
                                           http://youtu.be/IyCRJmerW1Q

domingo, 22 de setembro de 2013

Reais...e Incompreensíveis!


"Ver o mundo num grão de areia
e o céu numa flor selvagem
Pôr o infinito na palma da mão
E a eternidade numa hora."
Wiiliam Blake in Auguries of Innocence

 O que faz começar os momentos que nos constroem por dentro será sempre o bom uso do coração.  Porque, verdadeiramente, aquilo que nos distingue, aquilo que nos torna únicos e nos permite crescer dentro do nosso tamanho,  é a beleza que emana destes momentos  onde pomos à flor da pele tudo o que somos e sentimos, sem varrermos os sentimentos e as emoções para debaixo do tapete e sem nos atropelarmos nas páginas em branco do não dito, das múltiplas defesas, dos filtros e dos medos.

Esses momentos, que estão fora do tempo e do relógio,  determinam toda a essência humana e, em última análise, a sua própria história. Porque são eles que permitem a vivência plena da verdadeira experiência de companhia, de partilha e comunhão, sendo o verdadeiro respirar da alma humana. 

A própria compreensão do mundo, da vida e de nós próprios é algo que nos pede  esta demora , este “estar”, esta partilha, este “ estar em relação”, o estar com tempo, com disponibilidade interior, este estar com o coração e a alma inteiros, este estar com mais siêncio que palavra.

Na verdade, talvez não consigamos realmente compreender nada nem ninguém senão através desta relação de partilha mais profunda e que envolve essencialmente três dimensões: a gratuitidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio.

Compreender, tal como aprender, seja sobre a vida, seja sobre o mundo, seja sobre os outros, sobre nós, sobre a raiva, sobre o amor ou sobre a razão de ser de uma pedra no caminho, pede-nos outro tempo e outro estar. Pede um tempo que não é o tempo do relógio, não é o tempo regulado por uma máquina, neutral, isento, uniforme, inalterável,  contínuo, progressivo,  indiferente às ingerências do presente ou do que fica para trás. O tempo do relógio é um tempo sem vínculos, sem sentimentos que se atrasam, recuam ou duvidam, que tropeçam,  desejam ou concretizam após muitas  ambivalências, é um tempo sem raízes que maturam para lá do tempo. Compreender, tal como aprender, exige um tempo humano. Um tempo que respira. Um tempo que pulsa ao ritmo da vida…tantas vezes ao encontro do olhar do outro. Até porque a vida de cada um de nós não se basta a si mesma. Precisaremos sempre do olhar do outro, que nos olha sempre de um outro ângulo, com outra perspetiva. E é neste encontro, nesta relação que vamos crescendo. A vida não se resolve individualmente mas sim na partilha. E é aí, nesses momentos fora do tempo cronometrado, que ela é realmente bela.

São esses  momentos fora do tempo  que nos fazem humanos e que nos dão coragem para os “minutos a seguir” da vida quotidiana… É verdade que, quase sempre, não são estes momentos que se colocam numa moldura. Talvez porque façam parte dessa outra dimensão de nós, íntima e silenciosa, infinita e imune ao pó dos dias. Sabemos que os guardamos. E sabemos que correspondem a uma parte importante da história de uma vida.  Mas nunca saberemos  que caminhos da nossa própria história individual eles determinaram ou determinam. Sabemos, contudo, que é por eles que a nossa vida é sempre mais do que aquilo que é e que sobra sempre outra vida à história que contamos de nós próprios. Porque há algo de nós que fica num outro espaço, num outro tempo, num outro infinito.  

À semelhança da nossa história individual, assim acontece com a própria História. Como bem acentuou o historiador José Mattoso, há uma “incomensurável relatividade” que a escrita da História precisa incorporar. Daí não devermos, como ele conclui: “(…)dar mais valor à queda de um império do que ao nascimento de uma criança, nem mais peso às ações de um rei do que a um suspiro de amor.”

Talvez um dia mereçamos uma história e uma História contada assim… E talvez aí também os momentos fora do tempo possam figurar nas molduras…da nossa compreensão humana.
 
 
 
                                                            (Just Breathe - Pearl Jam)
                                                 http://youtu.be/aePWkeDxRjE
   

 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

As melhores coisas que há...para ser feliz!


"Sou um aquário de mares"
  Jorge da Sena
                                             Tiago Simões e Mafalda Gonçalves in CNS Fotografia de Luís Fráguas
 

 O poeta António  Pina dizia que as coisas melhores que há são de ar… Eu assumo o risco de parafrasear: a coisa melhor que há…é mesmo o ar deles (vide acima Tiago S. e Mafalda G.)! Este ar único de ser feliz com o Atlântico inteiro no olhar e o coração a pular com tanta vida a sorrir e a latejar por dentro, por fora e por todos os centímetros quadrados da derme.

Aquilo que de mais simples e precioso podemos dar aos nossos filhos são estes momentos… momentos felizes…momentos de ar!… Momentos em que eles podem sacudir o pó dos dias e porem o coração a arejar...Momentos em que, pela pele, deixam escorrer um sorriso atlântico, um sorriso de areia e espuma, um azul ondulado de céu inteiro…
 
Trata-se de momentos em que deixam a alma ao ar…a respirar…ou simplesmente a…estar… São momentos em que os dias têm mais dia dentro, em que chegam até nós cansados mas a pedir mais hoje e mais dias seguintes, em que a vida se lhes demora mais dentro do olhar e em que um agora se quer eterno.
 Há momentos assim, para todos nós… E são estes momentos que dão mais eternidade à vida…Mesmo que durem segundos, minutos, dias ou semanas.
 Mas nós, pais, adultos, simples(?) seres humanos, tão embrenhados que estamos no nosso dia-a-dia e tão limitados pela obrigação de solucionar problemas imediatos, adiamo-los sempre para o fundo do relógio, para o fim do calendário, para o dia que nunca chega…
 
Mas ninguém, e muito menos as nossas crianças, vivem felizes de coração definhado, amarfanhado e em anoxia mental e afetiva. É por isso que estes momentos, estes momentos de ar, de que tão bem fala Manuel António Pina, são essenciais…Além de serem inesquecíveis…E serem, mesmo, a melhor coisa que há!
Seria bom, muito bom que todos os meninos que por aí vegetam com o olhar enjaulado nas playstation pudessem simplesmente ter um “ar de Tiago”… E as raparigas que sufocam inteligências e afundam narizes e olhos e pestanas e pontos negros e borbulhas no facebook tivessem um “ar de Mafalda”… Talvez respirassem…melhor. Ou, simplesmente...Respirassem! E isso (respirar!), quer se queira quer não, é fundamental, parece, para ser feliz!
Ambos (o Tiago e a Mafalda) conheceram-se no Dia Aberto do Clube Naval de Sesimbra. Desde esse dia, voltaram a encontrar-se num curso intensivo de Vela. A Mafalda é já uma notável atleta da modalidade e não só “apadrinhou” o Tiago como o acarinhou de uma forma admirável, a ponto dele já a chamar de “mana mais velha da vela” e existir, entre eles, uma cumplicidade que emociona, o que, a par da relação que estabeleceu com o  professor e um gosto especial por tudo o que tem a ver com mar, incentivou grandemente o Tiago para continuar na Vela.
No oceano de dificuldades em que, por vezes, a nossa realidade de adultos parece transformar-se, erguem-se, assim, estas ilhas de privilégio e verdadeiros arquipélagos de felicidade que nos dão mais horizonte à alma e mais alcance ao olhar… Sempre acreditei que a principal função dos pais passava por estas duas grandes dimensões:
1)    Ensinar os filhos a passar sem nós, ou seja, a construir a sua própria autonomia(o que implica proporcionar-lhes uma boa base de segurança familiar e confiança básica prévia);
2)    Proporcionar aos filhos o melhor e maior leque de possibilidades e experiências educativas e socio-emocionais devidamente estruturado;
 
Podermos dar aos nossos filhos a oportunidade de experimentarem o que realmente tem a ver com eles, o que verdadeiramente os apaixona e os faz sorrir como se o sol lhes aflorasse em redor dos lábios, ensinando-os, ao mesmo tempo, a descobrirem-se a eles próprios, a superar medos e dificuldades, a descobrir planícies de apoios, planaltos de coragem e a aceitarem-se como são, independentemente do que vestem, do que aparentam ou do sucesso superficial que atingem, é algo que nos coloca no trilho certo como pais .
 
Na verdade, só fazendo o que realmente nos apaixona, superando medos e ganhando coragem para vivermos de acordo com a verdadeira essência do nosso ser, alcançamos o maior poder do mundo:  o de sermos donos da nossa própria felicidade.
 
 
 




As coisas melhores que há...
 
 
As melhores coisas são feitas no ar,
Andar nas nuvens, devanear

Voar, sonhar, falar no ar,
Fazer castelos no ar

E ir lá para dentro morar
Ou então estar em qualquer sítio só a estar,
A respiração a respirar,
O coração a pulsar
O sangue a sangrar,
A imaginação a imaginar,
Os olhos a olhar
(embora sem ver)
E ficar muito quietinho a ser
Os tecidos a tecer
Os cabelos a crescer
E isto tudo a saber
Que isto tudo está a acontecer
As coisas melhores são de ar
Só é preciso abrir os olhos e olhar
Basta respirar!
 
Manuel António Pina

 

sábado, 25 de maio de 2013

Ser mais ou... Ser melhor?

Só melhora aquele que sabe sentir.
 
Nietzsche
 
 
 
 
 
Haverá sempre uma grande diferença entre sermos mais e sermos melhores... Não raramente observamos pessoas empanturradas de si próprias exactamente porque fazem das próprias vidas um catálogo de bens a adquirir ou experiências, viagens, festas, relações para partilhar com este e aquele ou formações para encher currículos ou, ou, ou...
 
 
A questão é: Este "catálogo" tornou-me melhor ou empanturrou-me dentro de mim próprio? Tenho uma vida melhor ou fiz uma vida menor a partir do tanto que lhe quis acrescentar? A verdadeira comparação deve ser sempre feita em função de nós próprios e nunca em função dos outros. Não interessa se somos melhores ou piores que os outros, se temos mais ou menos.
 
 Na verdade, esse tipo de comparações tende a não contribuir em nada para a nossa sensação subjectiva de felicidade ou realização pessoal. A comparação mais eficaz é comigo e com o meu momento presente: Sou, hoje, uma pessoa melhor do que era? Posso ser hoje uma pessoa melhor do que fui ontem?
 
E a resposta é: Sim! A qualquer hora!
Mesmo que o nosso catálogo de possibilidades esteja em "baixo"... Porque, ao contrário do verbo "Ter", o verbo "Ser" é muito menos exigente do que se pensa...O problema é ser tantas vezes mal conjugado...e entendido!
 
 Não precisamos de ser super-heróis para sermos melhores. Não precisamos de ser perfeitos. Apenas precisamos de ser...com todo o nosso ser. Às vezes, muitas vezes até, para sermos melhores, não é mesmo preciso sermos mais. Pelo contrário, é preciso sermos MENOS. Menos descuidados, por exemplo.
 
 
Todos temos muitos descuidos. Sobretudo para com as pessoas mais seguras para nós. Todos nós guardamos o melhor das nossas iras para as pessoas de quem gostamos mais. E todos nos magoamos com isso. Não será por querer, claro, mas por negligência. Por descuido. Nunca conseguimos estar tão atentos quanto queríamos , sobretudo quando se trata de amar. E todos nós, pelo menos em períodos mais turbulentos (ou turborápidos!) de trabalho que nos engolem os minutos que temos e apelam aos que não temos, de descuido em descuido, vamos promovendo desamparos.
 
E desamparos repetidos geram desistências, cansaços... Facilmente ultrapassáveis, contudo,  se deixarmos o coração acontecer... e não engavetarmos os sorrisos, os gestos de partilha e as palavras meigas e inesperadas de poesia nos armários mais recônditos da alma.
 
 
Melhoramo-nos sempre quando, por exemplo, aprendemos a ouvir melhor... Somos melhores, mais bonitos até, diria um psicanalista de quem muito gosto, quando sabemos escutar e tomar atenção.
Saber escutar é o princípio da tolerância, da humildade e da sabedoria, um lugar de verdadeiro encontro, atenção e cuidado para com o outro. 
 
Na verdade, tendemos a andar demasiado alerta mas sem dar verdadeira atenção.  Quase todos deixámos de o fazer, ora por estarmos tão repartidos por mil coisas, todas a concorrer umas com as outras, ou porque nos voltámos para dentro de nós próprios de tão intoxicados estarmos de pessoas "assim-assim" e de más experiências.
 
Mas sem prestar atenção à vida, às vidas que temos dentro e às que nos passam ao lado, vamos perdendo oportunidades únicas de crescer, amar e sermos verdadeiramente...melhores!
 
 
 
 
 
 


 
  
   
  
 
 





domingo, 28 de abril de 2013

A arte de gerir distâncias...e eternos segundos.




Parece quase um oxímoro mas é uma grande verdade: duas pessoas só crescem em intimidade quando, juntas, se respeitam na distância...

.... e se comovem na beleza de um segundo.

O afeto genuíno só se constrói forte quando, na pluraridade das diferenças, se respeitam singularidades e espaços de ser …


Amar o outro envolve, acima de tudo, esta minuciosa arte de gerir distâncias…. Envolve saber estar perto mas não ao ponto de  sufocar… E envolve saber estar longe mas não ao ponto de abandonar… 

Por isso, amar exige sempre a alma sensível do artista e a árdua precisão do engenheiro. Ao mesmo tempo, exige a inspiração do poeta e o fôlego cardíaco do atleta.

Porque amar é também a capacidade constante de nos comover-nos…de mover-nos com... seja na subtileza de um segundo...ou dum minuto...ou duma vida inteira. 

É comunhão de transparências, sensibilidades, olhares, visões do mundo e espontaneidades de dois seres que se movem ao mesmo tempo, em sintonia um com o outro e um para o outro.

Dois seres que, num mesmo percurso (e, por vezes, num feliz acidente de percurso!) se encontram a meio dos gestos, a meio duma palavra que se quis silêncio, a meio dum respirar de alma, suave e quente, dum olhar que se quis quieto e calmo, dum momento que se quis demorado e longo…

É sempre um crescendo de intimidade, de afeto e beleza quando duas pessoas se comovem juntas e, principalmente, se comovem uma com a outra, mesmo à distância, com aquilo que levam uma da outra dentro de si, …. No sentido em que se sintonizam com o mais fundo do outro…e de si próprias.

E são, frequentemente, essas pequenas grandes coisas que mais valor têm…e que não se podem comprar. Aliás, normalmente só tem incalculável valor o que não se pode comprar! Pode-se comprar morangos mas não se pode comprar os morangueiros em flor no campo em que florescem… nem a delícia dos lábios a saborear o vermelho do fruto. Isto não tem a ver com dinheiro. Pode-se dar dinheiro por coisas que têm valor. Uma fotografia, por exemplo, tem um custo, mas o seu valor está onde ela não está, na mistura entre o momento e o sonho que nos agarra quando a vemos. Também assim é o amor.

E por isso podemos amar o outro nas pequenas grandes coisas… Que não têm preço… porque são elas, quase sempre, que nos comovem. Amamos o outro na bondade tornada gesto ou atitude, amamos o outro na beleza tornada palavra, amamos o outro no cuidado, num timbre de voz, num sorriso musical, numa curva de lábios, num olhar com poemas dentro, num coração feliz inundado de sol, numa pele a cheirar a manhãs de luz e verão, num segredo misterioso e belo de ser que se entende sem se dizer, num equilíbrio de alma que não sufoca...
Amamos o outro, sobretudo, na sua capacidade de tornar o tempo mais tempo e de tornar a  vida mais viva... De dar, em suma, mais beleza a cada segundo nosso. E com isso o encher de...eternidade. 




 
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Nice is so...nice!

"Quoi que tu fasses ou rêves de faire, commence!
Il y a dans l´Audace, du Génie, de la Puissance et de la Magie..." 
Goethe
 
São 7.15h da manhã em Nice…À saída do hotel Magnan, as gaivotas entram devagar pela pupila, fazendo esvoaçar os últimos restos de sono que trago presos ao olhar. Devagar, também  todo o azul entra. Por fim, o mar. E um sorriso de sol, já perto da paragem de autocarro que me levará para mais um dia no XXI European Congress of Psychiatry na Acropolis, do outro lado da cidade.
 
Na paragem, e enquanto me sento, reparo no slogan interrogativo do anúncio do outro da estrada:   Qu´est ce que est indispensable et souvent incompréhensible?  
Tanta coisa…penso. Por exemplo, a capacidade de nos encantarmos por uma cidade.

Ou, em maior dimensão, a capacidade de nos encantarmos por uma pessoa, por um projecto, por um sonho, pelo conhecimento, pelo mundo, por nós próprios e pela própria vida!...

 
A nossa capacidade de encantamento é, de facto, indispensável para nos sentirmos vivos e genuinamente humanos. 

Mas é, igualmente, incompreensível!

A experiência de encantamento é tão maravilhosa quanto inexplicável analiticamente.
Ninguém sabe, por exemplo, porque é que se encanta por certa pessoa e não por outra...É sempre no plano do incompreensível que tudo acontece! É um misto de voz e cheiro e alma e temperatura e subtilezas várias e palavras a condizer com o estado do coração a dizer: Bem vindo ao meu ser! Ficas-me bem! Gosto de ti comigo e de mim contigo!


O encantamento por uma cidade é semelhante! A cidade e o viajante quando se encantam mutuamente é porque ambos condizem um com o outro!


E Nice é daquelas cidades com a qual sabe bem condizer...
Toda ela é leve, um sorriso de sol e luz azul. A simpatia em flor e aroma doce.
 
Arrisco a dizer que o que nos faz gostar de uma cidade, o que nos encanta à primeira, à segunda e à terceira vista, o que nos faz  passear-lhe nos braços, render-se à companhia, é, em muito, semelhante ao que nos encanta numa pessoa… Uma cidade capaz de me encantar é, acima de tudo, uma cidade que me acende sorrisos…
 
É uma cidade capaz de sorrir em dádiva e sonho com todo o seu ser …É uma cidade que alimenta a alma do viajante mais do que a explora… É uma cidade que lhe dá a força que o conduz a vivências únicas, a lugares inesperados, onde ele encontra sempre mais alguma parte de si próprio. É uma cidade que ilumina corpo, alma, olhar e pensamento.
 
É uma cidade que se sabe tornar cada vez mais bonita e sabe como nos tornar bonitos. É uma cidade que nos sabe falar nos diferentes dialetos do coração e do olhar. É uma cidade que sabe o valor das pausas e do silêncio… E o valor da História e das histórias. E dos destinos ideais que se transformaram em destinos vitais que são, no fundo, os de todos nós. É uma cidade que respeita. É uma cidade que em vez de puxar nos dá a mão… Em vez de prender, seduz.
 
Nice é assim…
Dizem que para atingir o encanto de Viena lhe faltaria a elegância da música. 
Mas... haverá maior elegância do que ter um rendilhado de mar, espuma e horizonte a bordar-lhe um rosto azul?
 





 
 
 
 
 
 
 

domingo, 31 de março de 2013

Quando o Presente é mesmo...o melhor presente.

 
 
 
Vivemos numa época em que, verdadeiramente, existimos mais em função da hora  a seguir do que do minuto que passa. Já não formamos gerúndios... Já não vamos sentindo...Já não vamos sendo. Ou fomos ou seremos. Ou idealizamos passados ou pressionamos futuros. Mas raramente damos espaço ao tempo e  tempo que chegue ao espaço. Raramente formamos um gerúndio suficiente para o verbo sentir se demorar. Ou para o presente se tornar presente.
 
Ser presente significa comovermo-nos... Com os outros, connosco. Implica, muitas vezes, ficarmos mais iguais a nós próprios. Implica descobrirmos tudo o que era tão genuinamente nosso e que, com a pressa dos dias, dos meses, dos anos e da vida, fomos varrendo para debaixo do tapete do coração e da própria alma. Os afectos que escondemos, os sentimentos que não expressamos, a beleza das coisas simples que já não procuramos...
 
Vivemos com o coração abotoado e em silêncio, não exprimimos o que somos por dentro quase sempre por medo de sermos mal-julgados ou mal-entendidos, nunca mostramos os bastidores do nosso teatro e do nosso poema cardíaco que pode, tantas e tantas vezes, estar repleto de coisas bonitas. De coragem. De verdade. De persistência. De unidade. De bondade. De beleza. Infelizmente, aprendemos a esconder mais do que a mostrar.
 
Mas para amar e ser amável é essencial pormos legendas no coração. E, mais fulcal ainda, é pôr o coração a apanhar ar, tão sufocado que está pelo pó dos anos, pelo espartilho das rotinas e pela cinza das viciosas e mesquinhas comparações.
 
 
Acredito, pois, que a par do magnésio, não há melhor reforçador do músculo cardíaco do que todas as vitaminas e minerais que o Presente tem. Desde que o mesmo seja saboreado a gosto, com a alma e corpo presente.
 
Parar, neste sentido, não é morrer. Pelo contrário. É sobreviver. É viver sobre. É viver sobre uma vida que teima em viver-nos.
 
São, por isso, maravilhosos os dias, as pessoas, os poemas, os livros, os momentos, as coincidências, uma palavra, um olhar, o sorriso de sol no rosto dum filho, que nos dão o Presente de presente e nos fazem apetecer dizer a vida de outra maneira...
 
Então apetecem-nos gerúndios, apetece-nos o presente demorado, apetece-nos a beleza simples, as sílabas quietas, a generosidade de ser feliz.
Apetece-nos aprender todos os inícios, a reaprendizagem do olhar, uma estrofe por completar, um sorriso litoral, um rio ou um mar à porta dos olhos, um corpo num horizonte de água, uma líquida liberdade, uma secreta embarcação, um oceano breve, um vento favorável onde deixar voar o cabelo...ou uma madeixa de alma.
 
 
 
 
 
 

 
 

segunda-feira, 25 de março de 2013

(Re)começos do tempo...e da vida.


Os primeiros vestígios da manhã tocam-lhe as costas curvadas pelo cansaço de mais uma noite em vigília.
Toca-a, ainda de olhos fechados por um sono breve forçado a calmantes. Sente-lhe o cateter na mão minúscula, a inclinação da agulha, a aspereza do penso, as ligaduras que lhe amarram os ínfimos pulsos  às grades cinzentas da cama seis.
O número da cama alinha-se com as horas e desacerta nos minutos do relógio branco, altíssimo e redondo da parede oposta: são seis e dezassete.
Espera que ela acorde… Há tanto tempo que ela não acorda…
Desde a operação que a vida se resume a um olhar de esperas.
Sente saudades de lhe ver o olhar a amanhecer. A retina a encher-se de manhã. As pupilas a contraírem-se de luz. De lhe ver a curva dos seus olhos que lhe dá a volta ao peito numa dança de roda e doçura.
Sente saudades de lhe ver um centímetro quadrado de pele a descoberto onde possa pousar um beijo.
Tudo nela está coberto de pensos e tubos e fios e máquinas e incerteza e luta entre a vida e a morte e pensos e tubos e fios e máquinas…
Só queria pegá-la… Ou despegá-la de tudo aquilo… E encostá-la à vida. E encostá-la a si…E trazê-la para os cuidados intensivos do seu coração.
Não era justo que tanto sofrimento coubesse em tão pouca infância. Que, em tão pouco tempo, ela já tivesse aprendido mais a sobreviver do que a brincar e que soubesse mais de dores crudelíssimas à tona do corpo do que saber de ser feliz…
A revolta inunda-lhe a voz e enche-lhe de sal e água cada sílaba do verbo acordar que ela pronuncia, em modo imperativo, gota a gota…
- Acorda minha pequenina...por favor… acorda…
Beija-lhe o plástico dos tubos, a máscara de oxigénio, o branco das ligaduras. Beija-lhe o redondo dos joelhos, única superfície de pele a descoberto, colinas onde pousa, por momentos, a testa e o coração. O descuido das lágrimas borra os sorrisos que tinha desenhado com caneta neste espaço de pele. Recorda como a filha adorava quando lhe fazia desenhos nos pés ou nas mãos e, por isso, desenhava-lhe agora, e por ser o único espaço livre para tal, sorrisos nas articulações salientes. Volta a desenhá-los. Não fosse o estar em coma induzido e iria rir-se com cócegas, certamente. Continua a desenhá-los.
É então que lhe ouve um tossir abrupto, um tossir em socalcos, como se fosse a vida a sacudir-se e a abrir espaço dentro da voz. Um ligeiro movimento crepitante parece fazer ondular a cortina das pestanas. Ao mesmo tempo, a mão a tentar ser gesto. E o tossir a tentar ser ditongo. Ãe. E o ditongo a tentar ser palavra.
Mãe.
O relógio branco de lua parece acender-se em sol. Eram sete e trinta e dois e nunca uma palavra lhe soubera tão bem para dizer o tempo a começar...ou a vida.
 
 

sexta-feira, 22 de março de 2013

Heróis na sombra...

Acredito que, em cada um de nós, há sempre um super-herói escondido na sua própria sombra...
 
 Por vezes, acabamos por nunca o reconhecer e achar que os verdadeiros actos de heroísmo implicam grandes voos ou grandes façanhas.
 
Mas haverá maior heroísmo do que aquele que é preconizado pelos homens e mulheres anónimos que todos os dias educam, amam, trabalham, pensam, criam, lutam? Do que aqueles que, apesar da poeira dos dias, mantêm o olhar puro e limpo, capaz ainda de sonhar?
 
Haverá, nos tempos que correm, maior coragem do que aquela que nos leva de um minuto ao outro? 
 
 O heroísmo de voar de prédio em prédio, com visão raio-X a salvar cidades inteiras como na ficção, ficará certamente aquém do heroísmo de pais que enfrentam a doença de um filho ou daqueles que se confrontam com permanentes ameaças de perda de emprego, horários imprevisíveis ou sufocantes e vencimentos cada vez mais diminutos.   
 
Haverá maior heroísmo do que o da actual vida quotidiana? Do que o heroísmo da Dona Fernanda que, dia a após dia, educa dois filhos sozinha, mantém dois trabalhos, atende os clientes na caixa do supermercado sempre com um sorriso delicado, sai do trabalho a correr, entra no bulício dos transportes públicos para outra maratona e ainda chega a tempo de levar um dos filhos ao treino?
Sente que não não faz nada de mais. E o que faz melhor ainda é o caril de frango!


Há tantos super-heróis escondidos na própria sombra!
 


 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O que nos motiva...


Quem tem um porquê para viver consegue enfrentar qualquer como.
Nietzche

 

Há obras que nos marcam para a vida… A obra “Man´s Search for Meaning”, de Viktor E.Frankl, foi uma delas.

Este livro é, efectivamente, e como Allport bem focou, “uma obra-prima da narrativa dramática focalizada sobre os mais profundos problemas humanos”, nomeadamente, a procura de um sentido para a vida quando as circunstâncias nos são mais adversas e tudo nos é retirado.

Viktor E. Frank, embora naturalizado americano, foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Medicina de Viena e, durante a II Guerra Mundial, passou três anos nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau. O pai, a mãe, o irmão e a esposa  morreram nesses campos de concentração e, como o próprio diz, este livro é a história de um campo de concentração visto de dentro, contada por um dos seus sobreviventes. Frankl descreve e percebe, por exemplo, tudo o que o ser humano faz quando subitamente percebe que não tem “ nada a não ser a sua existência ridicularmente nua”.  Como o autor refere, "no campo de concentração, todas as circunstâncias competiam para fazer os prisioneiros perderem o controlo e perderem toda a sua dignidade e sentidos de vida. Todos os objectivos comuns da vida eram desfeitos. A única coisa que sobrava era “a última liberdade humana" – a capacidade de escolher a atitude pessoal que se assume diante de determinado comportamento e circunstâncias."

O que é que, em circunstâncias adversas ou mesmo limite, nos prende à vida? Ou, mesmo na ausência de adversidades aparentes, o que é que nos faz viver? O que é que nos motiva? Esta questão é de suma importância e é sobre ela que proponho uma reflexão. Porém, antes de a abordar mais profundamente, não queria deixar de referir que actualmente, e salvo, obviamente, as devidas comparações, há muitas pessoas a viverem em autênticos campos de concentração à vista de todos, aceites por todos e, o que é ainda mais ubíquo, legais e pagos por todos.

Estes “campos de concentração” têm, na nossa sociedade, vários nomes.

Uns poder-se-iam chamar "campos de concentração mentais", em que a pessoa se auto-mutila, auto-tortura e auto-destrói por várias razões, que vão desde as perturbações da personalidade a formas de agressão auto-deslocada em resposta ao sentimento de  frustração. Estes campos de concentração mentais estão igualmente presentes quando a pessoa é invadida por  pensamentos delirantes, obsessões ou se vê, de repente, prisioneira de compulsões, comportamentos aditivos  e se coloca, voluntaria ou involuntariamente, em situações e/ou relações que a tornam num farrapo humano. E aí também entramos no campo da profunda complexidade das motivações humanas e da psicopatologia e a conversa daria pano para mangas e calças e um guarda-roupa inteiro.

Outros "campos de concentração" chamam-se casas de famílias altamente destruturadas, em que entramos e sentimos que em meia-hora vivemos metade da Primeira Guerra Mundial, um quarto da Segunda, a Guerra Colonial inteira e mais um terço da Guerra do Golfo e ainda uma dízima da Guerra Cívil na Síria. O pai ameaça esfaquear a mãe depois de ter abusado sexualmente da filha menor à frente das duas irmãs de três e quatro anos que se agarram aos irmãos de cinco e seis que apontam uma arma ao pai, depois de lhe beberem a garrafa de vinho que este deixou quase no fim. Este cenário repete-se quase diariamente.

Outros chamam-se tribunais e aqui entramos noutro guarda-roupa ainda mais extenso (e caótico!) que o acima referido pelo que nem mais uma palavra vou escrever sobre os ditos.

Outros ainda chamam-se lares ou, para usar um eufemismo totalmente perverso - “casas de repouso”! São aqueles que cobram valores exorbitantes para "fazer o favor" de cuidar dos nossos idosos, ou seja, de os entupir de ansiolíticos e hipnóticos a fim de os mesmos não berrarem para sair dali, não pontapearem e não gritarem quando os amarram, não chamarem pelas famílias para os tirarem dali senão lá se vai mais uma fonte de rendimento, não vomitarem, não cuspirem as sondas porque dá muito trabalho tentar dar o comer à boca, etc, etc, etc. E até ajuda entupi-los bem porque assim sempre começam a usar fraldas, estão sempre na cama e os hipnóticos e ansiolíticos tomados por mais de dois meses sem interrupção causam perdas de memória irreversíveis em idade avançada e agravam as demências, o que é óptimo porque assim já nem reconhecem tão bem os familiares e ficam mais tempo no lar…até morrer, de preferência! Mas com todas as condições de higiene! Com todas as condições para...repousar. Pois, porque  nestes "campos de concentração" quanto menos o idoso fizer, souber, pensar, falar, melhor. O que interessa é vegetar. O ideal é dar pouco trabalhinho ao pessoal que a malta quer é ir para casa ir ver a Casa dos Segredos.

Há ainda muitos outros campos que têm muitos outros nomes mas é sempre importante deixar ao leitor a liberdade de decidir quais é que gostaria de ver aqui incluídos e promover, assim, a respectiva auto-determinação…

E aqui chega-se ao ponto essencial: o que nos faz viver, o que nos motiva, o que nos faz sentir vivos, o que nos mantém vivos, o que nos faz sentir humanos? Quando é que alguém se deixa morrer? Quando é que alguém, apesar de todas as contrariedades do meio, deseja viver?

Todos teremos, certamente, respostas diferentes. Para muitos, a resposta é unânime: a família. As pessoas de quem gostamos. O amor aos outros. Ou o amor a uma causa. E tudo isto, tudo isto que é tanto, faz tanto sentido. Porque, efectivamente, o que nos faz viver é aquilo que nos move ao encontro de algo. Para estarmos motivados é preciso ter algo para ir ao encontro de... (a palavra Motivação deriva do latim movere, tendo, por isso, na sua raiz etimológica a noção de movimento). Se não temos nada nem ninguém, nenhuma causa nem nenhum Outro que nos mova, que nos faça ir ao seu encontro, encerramo-nos em nós próprios, perdemos o sentido da própria vida.

Talvez por isso Frankl tenha tocado num aspecto essencial: o sentido. E o sentido encontrado por mim mas fora de mim. Ou seja, aquilo que me faz viver, aquilo que me motiva, em última instância, não está em mim mesmo, está no mundo, está nos outros. Eu vivo e sou capaz de continuar vivo se sentir que tenho algo ou alguém porque viver, alguém ou algo que precisa de mim, um mundo que precisa de mim, uma vida que precisa de mim.

Se vivo apenas para mim próprio e se me resumo apenas a mim e a mim mesmo, facilmente perco o sentido da vida.

Ora, decidir se quero viver para mim, para dentro, ou para o mundo, para fora, é uma decisão minha. O sentido que dou à minha vida (não o que me acontece!) sou eu que o determino.  Eu tenho essa liberdade, independentemente das circuntâncias em que vivo.

E, principalmente, a permanente liberdade de ESCOLHER, mesmo sendo ou estando prisioneiro, é algo que eu posso ter. Escolher SER. Escolher uma atitude. Isso dá-me dignidade. E motivação!

E nisto encontramos um ponto de convergência com Maslow, um psicólogo humanista que muito admiro, autor da teoria hierárquica das motivações.

Um dos princípios fundamentais defendidos por Maslow, e aquele que mais admiro na sua teoria, foi o de que todas as pessoas têm três necessidades psicológicas básicas e que, grosso modo, são essas as que as motivam para a vida e para a auto-realização como seres humanos.

Assim, todo o ser humano, para se sentir psicologicamente equilibrado, tem necessidade de ver satisfeitas as suas necessidades de:

a) Auto-determinação (motivação para a autonomia, para a auto-determinação, para escolher)

b) Competência (motivação para se sentir competente/desenvolver um talento)

c) Relação/Vinculação (motivação para o estabelecimento de relações de vinculação e relações interpessoais)

 Se quisermos transpor para a educação infantil, para uma criança se desenvolver equilibrada e globalmente, ou seja, do ponto de vista físico e psicológico, é importante ter satisfeitas as suas necessidades fisiológicas (nenhuma criança consegue aprender matemática ou concentrar-se na leitura com o estômago vazio ou sem ter conseguido dormir! A sublimação dos impulsos vitais, enquanto mecanismo de defesa psicanalítico e por vezes “procurado” pelos artistas só funciona para os adultos, que normalmente têm suficientes reservas adiposas, não para as crianças!!!!).
Por outro lado, tem que ter as suas três necessidades básicas  psicológicas igualmente satisfeitas, ou seja, é importante que ela se sinta competente em alguma área, nomeadamente uma área que seja valorizada pelos adultos (e não apenas, como tantas vezes acontece, a ser o “palhaço” da turma ou o “bad boy”) – todas as crianças são competentes em alguma coisa e é importante serem reconhecidas nisso ou, de outra forma, acabarão por satisfazer essa necessidade de competência através de comportamentos desviantes já que isso lhes traz a aprovação dos pares.
Uma criança pode não ser competente na leitura mas sê-lo em expressão artística, física ou musical, na matemática, nas competências de liderança ou autonomia, a vestir-se, a vestir os irmãos, a lidar com adultos bêbados diariamente… E tem que ser valorizada nisso. Que é tanto!
Outra necessidade essencial a ser satisfeita é a necessidade de auto-determinação. É importante que a criança sinta que tem possibilidade de escolha e autonomia. Isto não significa ausência de limites ou estrutura, muito pelo contrário. Os limites são aquilo que permitem à criança estruturar-se mentalmente. O que significa é que o adulto, sendo o "contentor" da criança na concepção teórica de Winnicott, estabelece os limites a fim de dar e restabelecer os sentimentos de segurança e protecção essenciais para o desenvolvimento da mesma, permitindo, ao mesmo tempo, que esta exerça a sua autonomia dentro desses limites.
Por exemplo, a partir dos 4 anos muitas crianças, especialmente as meninas, querem escolher a roupa para vestir. Sugere-se que não se diga: podes vestir o que quiseres, tu é que escolhes. O que se sugere é que se dê duas opções (limite imposto pelo adulto, função contentora e securizante) e, dessas duas opções, a criança poderá escolher uma (promoção da autonomia). Ou seja, o adulto deverá dizer: Percebo que queres escolher a tua roupa. Tens aqui estas duas camisolas. Podes escolher uma delas, a que preferires vestir hoje ou gostares mais.

Por último, a necessidade de relacionamento é fundamental para a criança se desenvolver harmoniosamente. E aqui é necessário que a criança estabeleça relações de vinculação seguras, ou seja, relações nas quais se sente cuidada e protegida, sentido igualmente que pode confiar no outro e não se sentindo ameaçada pelo mesmo nem agredida, recorrendo às mesmas como base segura a partir das quais explora o próprio e as aprendizagens e as relações de amizade com os pares.

As relações interpessoais são determinantes uma vez que grande parte da vitalidade da criança, a sua atitude perante o mundo e a vida estão relacionadas com a forma como é e foi ou não amada desde o início da sua existência. O bem-estar ao longo da vida, aliás, o próprio equilíbrio e gosto pela vida encontrar-se-á largamente suspenso na solidez da rede de relações afectivas que a criança venha a estabelecer com os outros.

Um desenvolvimento pleno requer o estabelecimento de relações interpessoais seguras, seja nos primeiros tempos de vida seja mais tarde, no seio da família, trabalho ou tempos de lazer.

No adulto, a satisfação das necessidades psicológicas de relacionamento interpessoal, sentimento de competência e autonomia/auto-determinação também se afiguram cruciais para o sentimento de bem-estar e mesmo para o sentimento de se “sentir vivo”.

Se pensarmos bem, quantas pessoas não perdem o seu sentido para a vida, o seu desejo de viver exactamente porque sentem que nunca são donas de si próprias, nunca têm controlo em nenhum aspecto da sua vida; nunca são competentes em nenhuma tarefa, nem que seja a vestir uma camisola ou a apertar os sapatos; e nunca conseguem manter uma relação de verdadeira vinculação com ninguém? E, no entanto, têm tudo! Têm bons carros, boas casas, dinheiro, heranças, a família perfeita. Mas, paradoxalmente, sente-se uns “sem-abrigo” por dentro.

Muitas destas pessoas sentem-se vazias destas três motivações psicológicas básicas. Não sentem satisfeita a sua necessidade de auto-determinação porque sentem inexoravelmente que há sempre uma mãe ou um pai ou um marido ou uma mulher ou um chefe ou um Estado ou uma Europa ou uma China a mandar nelas!!!

Ou que não sentem satisfeita a sua necessidade de competência porque, ou são demasiado perfeccionistas e acham que está sempre tudo mal, achando que o que fazem só estará bem quando receberem um Nobel ou estão sempre a ser criticadas sentindo-se constantemente mais ínfimas que o virús da gripe (que, mesmo minúsculo, é bastante poderoso!!!)

Ou mesmo porque,  por último, também não sentem satisfeita a sua necessidade de relacionamento pois, normalmente, a manutenção de relacionamentos equilibrados decorre das capacidades de auto-determinação/autonomia e do sentido de competência e segurança/confiança, no outro e no próprio, isto é, não tendo iniciativa ou dependendo demasiado dos outros e não confiando em nós (ou confiando demasiado, o que, em última análise, é uma defesa para a insegurança) e/ou nos outros, dificilmente se consegue satisfazer a necessidade de uma vinculação segura ou manter relacionamentos equilibrados e aprazíveis para o próprio e para os outros.

Só saindo de mim para o outro, de mim para o mundo, de mim para algo maior que eu poderei, talvez, matar essa fome de sentido.

Se estivermos sempre a pensar no que podemos esperar da vida, dos outros e do mundo em breve morremos à fome.

Porque talvez a pergunta certa seja: o que é que a vida espera de mim, o que é que eu posso ainda fazer pelos outros e pelo mundo? É isso que me pode encher de sentido, não o contrário. Nós estamos biologicamente concebidos para procurar, não para ficar à espera. Temos um corpo adaptado para o movimento, não para estar sentado no sofá a ver a vida dos outros. Os nossos olhos gostam de olhar em frente, não de olhar para cima à espera que o comer, a renda da casa e o afeto dos outros caia do céu! Nós estamos biologicamente adaptados para a ação, não para a passividade.

 Nós aguentamos dilúvios de lágrimas se sentirmos que o sofrimento tem um sentido. Aguentamos a tristeza se sentimos que temos para quem ou porque chorar. O que não aguentamos é o vazio. O desespero do sofrimento sem direcção nem sentido.Nós somos seguidores de causas, de amores profundos, temos um coração musculado que aguenta olhares em frente, esperanças fortes, um coração pronto para enfrentar os "comos" desde que haja um "porquê".

Mas há olhares, almas e corações a quem falta um porquê... E isso tira a força para enfrentar os "comos" do dia a dia!

Eis a razão porque, tantas e tantas vezes, passam pelas nossas vidas pessoas que são autênticos desertos de afeto ou de vontade ou de esperança ou de motivação. Pessoas que, à primeira vista, aparentam ter tudo. E são paupérrimas.
Porque há, de facto, muito mais mendigos do que aqueles que vemos à noite nas ruas de Lisboa…São aqueles que perderam o sentido de tudo e jazem à fome por um sentido de si e do outro, do eu e do mundo. 
E essa fome é muito mais difícil de matar. Não se mata com pão. Mas é a que mata mais depressa.



 
(Dr. Viktor Frankl em entrevista)